Vaziez

“É uma nascente que não nasce; é um poente que não vai. É uma decisão que não se toma. É uma mistura de cores sem padrão. É um mal-estar geral. A comida pouca, o dinheiro curto, o governo desgovernado. É o permanente estado de liquidação. É o telefone que não toca. É a mancha do sofá que não saí. É a perna da estátua que não cola. É o machucado que o teu silêncio provoca. É o nosso fracasso. É um vai-e-vem mental à toa. É o trem que passou e me deixou na estação. É o zíper da mala que não fecha. É a roupa obsoleta guardada para ocasiões que não chegam.  As tranqueiras da despensa. A comida vencida do gato. É o que não avança. É o que retroage. É o frio causando saudade do calor. É a falta de amor. É o copo vazio. A surdez social. O vácuo. A vaziez.”

(Adriana Araf)

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