Tempo de espera

(…) “Uma das frases usadas na tentativa de instilar um pouco de resistência paciente na mente dos impetuosos é aquela que diz que ROMA NÃO FOI CONSTRUÍDA NUM DIA. Ela pretende chamar a nossa atenção para um exemplo excepcional de realização grandiosa e lenta. De acordo com a tradição, a cidade precisou de quase nove séculos inteiros para evoluir do povoado original de cabanas de barro A condição de metrópole mais grandiosa e de maior poder sob a dinastia Antonina, principalmente no reinado do filósofo estoico Marco Aurélio, imperador de 161 a 180 d.C. Pelo caminho, houve muitos reveses e épocas de imensa dificuldade; a cidade foi saqueada, sitiada e queimada; houve guerras civis, revoltas e alguns líderes terríveis. Mesmo assim, sob uma superfície de muita agitação, pode-se traçar com clareza um longo arco de desenvolvimento. Esse arco não podia ser visto em qualquer dado momento da construção da cidade, mas é fácil reconhecê-lo em retrospecto. Ao invocar esse famoso exemplo, tentamos nos obrigar a aceitar uma verdade que, em termos abstratos, parece absolutamente óbvia, mas que, de fato, dificilmente, conseguimos apreciar nos momentos importantes em que mais precisamos dela. TEMOS DE VIVER DIA A DIA. Porém muitos dos projetos que valem à pena levam anos. Ficamos frustrados quando o progresso que fizemos nos parece tão pequeno. O ritmo aparentemente minúsculo do progresso ofende nossa necessidade de rapidez e coesão narrativa; ansiamos por sentir que estamos chegando a algum lugar; ansiamos por ver resultados concretos.

Aquela frase não é um mero chamado à paciência, não diz apenas “Algumas coisas levaram muito tempo para ficarem prontas. Do que você está reclamando.” Ela é um lembrete daquilo que está na base da paciência, ou seja, a compreensão de como determinados processos funcionam de verdade. A frase ressalta uma grande fonte de inquietação: o fato de não termos um entendimento adequado de como certas coisas vão demorar e, portanto, esperarmos que se realizem mais depressa e de forma mais simples do que seria razoável. Uma das ideias mais desanimadoras de quem está aprendendo piano ou alemão é o progresso insuportavelmente lento. Temos em mente a imagem de uma apreensão rápida que, na verdade, não é realista. Não baseamos nossa expectativa na compreensão adequada do processo necessário para realmente nos tornamos bons nas coisas (que, como a construção de Roma, segue um indireto com muitos desvios e aparentes obstáculos).

Lembrar que Roma levou séculos – e muito estresse e frustração – contrabalança o infeliz efeito colateral de um certo tipo de grandeza empresarial e criativa que esconde do usuário o tipo de trabalho necessário para criar os bens e serviços que ele está apreciando. As empresas educadamente escondem de nós que a pessoa que fundou a distribuidora de água mineral cujo produto estamos casualmente bebericando agora passou muitas noites de inquietação, deu ataques, esteve ausente da vida dos filhos, chorou e, certa vez, vomitou depois de uma reunião particularmente frustrante com um fornecedor de plástico. Como é muito nais provável encontrarmos o produto final depois que todas as dificuldades já foram superadas, é facílimo criar uma imagem desnecessariamente otimizada, simplificada e agradável de como tudo aconteceu.

A impaciência não é a insatisfação  com o fato de as coisas levarem muito tempo para acontecer, mas a sensação de que elas estão levando muito mais tempo do que deveriam. Às vezes até pode ser isso mesmo. Mas, com frequência, o problema não está tanto no tempo que as “coisas” levam, mas em nossa suposição de quanto tempo deveriam na verdade levar. E criarmos esse cronograma apertado sobretudo por ignorância. É por não compreendermos direito a natureza da tarefa que não calculamos o tempo que deveria levar”.

(trecho do Livro Calma, The School of Life)

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