Risos e Melancolia

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“No princípio, os chamados pecados capitais não eram sete, mas oito, e a melancolia estava entre eles. No final do século VI o Papa Gregório I reduziu os oito pecados capitais para sete, e a melancolia foi perdoada. Os sábios da Igreja Católica consideravam que a melancolia insistente, obstinada, aquilo a que hoje chamaríamos um estado depressivo crônico, ofendia o senhor Deus, pois o indivíduo melancólico perde toda a alegria, isola-se, revolta-se contra os outros. Eventualmente, suicida-se, e ao fazer isso desdenha o milagre quotidiano da vida. Resumindo: despreza a obra de Deus. Nem todos estavam de acordo.

Argumentavam outros teólogos que a melancolia não pode ser um pecado, pois não consiste numa ação concreta e sim num estado do espírito. E como se alguém nascesse com uma deformidade que o impedisse de se maravilhar e alegrar com a beleza do mundo. Culpá-lo disso seria o mesmo que culpar um coxo por não conseguir correr rapidamente. A discussão durou séculos.

Compreendo os doutores da Igreja que defendiam a primeira tese. A tristeza enquanto modo de vida sempre me pareceu um pecado grave. O pessimismo, esse filho bastardo da melancolia, é frequentemente uma espécie de adorno arrogante que alguns pensadores colocam na lapela para parecerem inteligentes. O pessimismo é, na verdade, uma facilidade do espírito, uma preguiça do pensamento, um luxo dos povos felizes, como escrevi algures. Difícil é ser otimista. Urgente é ser otimista.

Entre nós, angolanos, nem há – é bem verdade – alternativa ao otimismo. Acordamos, lemos os jornais e rimos daquilo que faria chorar um sueco ou um holandês. Rimos porque, apesar das notícias dos jornais, estamos vivos. Continuamos vivos. Rimos porque respiramos. Rimos porque escutamos, no quarto ao lado, as gargalhadas dos nossos filhos. Rimos porque sabemos dançar. Rimos porque podemos dançar. Rimos porque a esperança se alimenta do riso. Rimos porque o riso é subversivo. Rimos porque o riso é revolucionário.
Rir é resistir.
«O riso», escreveu Eça de Queirós, «é a mais antiga e ainda a mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em tomo de uma instituição e a instituição alui-se.»
«Uma boa gargalhada», acrescentou Nabokov, «é o melhor dos pesticidas.»

(…) As notícias não são boas, mas a nossa alma é maior do que o desânimo. Então rimos. Rimos de quem nos quer em silêncio. Rimos de quem abandonou a própria arte e se vendeu, e gostaria que todos estivessem à venda. Rimos de quem nos quer paralisar de horror. O riso é a arma com que enfrentamos a maldade e a estupidez. A melancolia é uma capitulação. A melancolia é uma cegueira que nos impede de ver o óbvio. O óbvio é a vida que fervilha em redor. O óbvio são as possibilidades, mesmo quando tudo em redor parece impossível. Resistir é quase um vício.

José Eduardo Agualusa, ‘O Paraíso e Outros Infernos’

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