Quase tudo

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Em Goiânia, uma pequena feira de livros deixava aos interessados um acervo interessante a preço baixo pela quantidade de títulos e assuntos.

Vi, li, pesquisei e decidi pelo Quase Tudo, de Danuza Leão. Essa personalidade me chama muita atenção. Já li muita coisa dela e agora, com Quase Tudo, pude ler sobre ela. Sim, suas memórias. Prodigiosa, direta e um texto pra lá de envolvente. Li em dois dias.

Eis um trecho destacado de suas encantadoras reflexões:

O sofrimento nos modifica (…). Você sabe exatamente do que gosta, o que quer, não perde tempo com bobagens. É a hora de poder se dar a certos luxos, o que no meu caso significa valorizar a simplicidade; aprendi a reconhecer os momentos felizes quando eles acontecem e não depois, como era no passado. Parece pouco, mas não é. Esse foi o lado em que mudei para melhor. A vida pode ser boa em qualquer idade, e ter conseguido superar as tristezas que ela me trouxe faz bem à minha alma. Não que elas tenham sido esquecidas, mas a maturidade me fez ver que elas fazem parte da vida e que a vida merece ser vivida como se morde uma manga madura, como dizia meu pai. Hoje me dou quase todos os direitos, até porque o tempo agora é mais curto, e não se deve desperdiçá-lo com nada de que não valha à pena. Meus amigos são em menor número, mas mais bem escolhidos; tenho muito mais prazer em ficar sozinha e não preciso mais fazer concessões. (…). Se não tenho medo de morrer sozinha? A gente nasce e morre só. Isso é elementar. 

(…)

É nessa fase que estou. Melhorei em algumas coisas, piorei em outras, mas basicamente sou a mesma; aceito melhor meus defeitos, que considero apenas características para ficar mais leve. Posso ser tirana e também dócil (quando quero), simpática ou insuportável. Gosto de uma vida de rotina, de saber precisamente o que vai acontecer no meu dia, ser dona de mim. Enfim. Mas sei que sou capaz, de repente, de jogar tudo para o alto e mudar tudo – meus gostos, minhas preferências, minha personalidade. E, quando tenho que tomar uma decisão repentina, sempre penso: “E, no fundo, por que não?”. E faço, claro. Às vezes fico na dúvida: não sei se não tenho personalidade ou se tenho muitas, tal minha capacidade de me virar do avesso (…). E descobri que sou uma pessoa solitária. Depois de tantos anos solteira, eu, que quando casada sou uma guerreira, adquiri hábitos difíceis de serem modificados. Foi nesse lado que piorei: só vou a lugares onde possa, a qualquer momento, chamar um táxi e voltar pra casa, e pretendo nunca mais discutir relação. Vivendo a dois, é preciso fazer concessões; não estou na fase de fazer nenhuma; e nunca consegui me livrar do meu maior defeito: a falta de paciência (…). Penso como o escritor Elie Wiesel, que um dia disse “Depois de tudo o que eu vivi, nada que me aconteça poderá me fazer muito feliz ou muito infeliz”. 

 

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