Você partiu, mas não foi embora…

“Eu tenho que reconhecer: você partiu, mas não foi embora. Continua nas minhas roupas, nos meus modos, nos porta-retratos. Dentro de mim.

Cada detalhe mostra o quanto estou só, mas dolorosamente acompanhada: ainda faço comida demais, não separei as toalhas e os teus whiskies, meio sorvidos, continuam na mesma posição.

Ainda não sei como faço para a vida andar, embora o meu discurso seja tão enfático que a fila anda.

Ainda não sei como faço para me recompor, embora o meu discurso seja o da cabeça erguida.

Ainda não sei como faço para me desocupar dessa ausência, embora os espaços já estejam completamente vazios…

 

Cafuné…

“Eu quero que você me ame sem dizer as verdades que eu preciso ouvir. Assim, me ame manso, pacífico, quase frugal. Com a cabeça no meu colo e  com cara de fazedor de cafuné.

Deixar de dizer as verdades que o outro precisa ouvir traz duas tolerências básicas, além de te fazer um bem enorme: as melhores verdades não devem ser ditas, pois sempre gostamos de fantasias;  a economia de palavras com o que deve ser dito e que poderia muito bem ser dispensado.

Falar também dói. Você tem que sacar o seu arsenal bélico verbal, se munir de uma bruta armadura vocal, conquanto poderia estar ali, no colo, quentinho, aguardando o cabelo ser remexido.

E, como gostamos de vencer, o embate do tribunal da verdade vai se estender. Serão horas perdidas em nome da verdade que deve ser decretada.

Hoje é domingo. Um bom dia para vestir pijama velho, escutar música, arrumar as gavetas e ter os cabelos completamente fora do lugar por dedos suaves e toques majestosos.

Segunda sim é um dia cheio de verdades. Quase absolutas, afinal todos nós teremos uma centena de horas nos próximos dias que nos deixarão cansados e decepcionados com tantas outras coisas que ainda precisam ser ouvidas.

Aproveite o colo. E chegue sem verdades, hoje.  Domingo é intervalo.

 

 

Necessidade x Vontade

Eu preciso limpar o meu armário, ir ao banco e aspirar os tapetes.
Eu preciso ir a igreja aos domingos.
Eu preciso parar de vestir o mesmo pijama.
Eu preciso ligar para minha mãe.
Eu preciso ter paciência com o excesso de calor.
Eu preciso de chuva.
Eu preciso incluir novos nomes na agenda do celular.
Eu preciso deletar outros.
Eu preciso ver o que está sobrando na despensa.
Eu preciso jogar os remédios vencidos.
Eu preciso atravessar a cidade e visitar minha amiga que se casou.
Eu preciso ver as fotos do álbum de casamento dela.
Eu preciso cursar uma pós-graduação.
Eu preciso ir às aulas.
Eu preciso triar as contas pagas e envelopá-las por, no mínimo, 05 anos.
Eu preciso de mais anos, de mais tempo, de menos contas.
Eu preciso me atualizar, voltar ao inglês.
Eu preciso de uma segunda língua.
Eu preciso colar o cabo da chaleira.
Eu preciso ir para a academia.
Eu preciso terminar aquele livro.
Eu preciso de uma agenda fixa e outra variável.
Eu preciso de mobilidade.
Eu suponho que preciso dessas coisas.
Mas, na verdade, eu preciso de você…
 (adriana araf)

Poucos desejos…

Hoje estou com esses poucos desejos.

Quero que chegue o sol depois da chuva.

Quero que chegue sexta, embora ainda sendo uma segunda bem numérica.

Quero que chegue o trem nessa estação abandonada onde me encontro.

Quero, decididamente, notícias suas.

Pode ser um despachado “está tudo bem”, que seria dito até para a caixa do supermercado. Mas, em face da demora, isso iria me consolar.

Hoje estou com esse inevitável e dolorido desejo.

De notícias. De palavras. Suas.

(Adriana Araf)

O cansaço me venceu! Que maravilha…

À convite, fui a um batizado numa determinada igreja evangélica. A cena, inédita para mim, foi bonita.  Os novos fiéis, amigos de infância, sabem da minha abertura espiritual. Penso que todo mundo tem que acreditar em algo. Isso movimenta a vida e acaba reenergizando as esperanças, pois algumas delas falecem como se fossem atingidas por um raio de decepção.

O sermão foi centrado na Bíblia, claro. Foram lidos trechos e mais trechos; e veio a frase do pastor: “com fé, nada poderá te vencer”.

Daí algumas reflexões espiritualmente apartidárias.

Eu penso diferente.

Algumas coisas precisam nos vencer e essa vitória do fato, do acontecimento, do sentimento, da partida, do cansaço, do que não serve, não tem qualquer ligação com falta de fé em sua genuína conceituação de ser a abstinência total do estado de dúvida.

O amor precisa nos vencer, nos fazer melhores, nos deixar emocionalmente abalados.  Extasiados.

O cansaço precisa nos vencer para que saibamos retomar nossa energia evaporada por uma briga insana com o “nada” e até mesmo, assim taxativamente vencidos, partir para outras aventuras e caminhos, deixando a carga para trás, abandonada como uma mala pesada por excesso de bagagem. Precisamos ficar exaustos com situações onde somos mal tratados, com pessoas que não nos querem mais, com trabalhos árduos sem alegrias, com falta de trocas.

Vencido, significa que você já lutou e deu seu gás e que haverá um abandono saudável do que não combina mais com as suas vontades e novos desejos virão em forma de frescos horizontes.

Dar-se por vencido também não tem relação com o fracasso, esse sentimento solitário que nos perturba e nos faz tão impotentes e desmerecedores de créditos externos. Onde ocupamos, fraquejados, a insólita posição de culpado e juiz ao mesmo tempo. Algozes da própria vida, enquanto essa escorre por supervalorizadas culpas e medos imaginários, na maioria das vezes.

Que o amor te vença, te enlouqueça, te rejuveneça daquele cansaço ardil. Que você, cansado, durma como um bebê. Que as coisas cansativas te nocauteiem imediatamente e que você procure curar seus hematomas simplesmente descansando. Simplesmente saindo de um estado escravizante de fadiga para um estado de repouso total dos teus incômodos. Um amor novo, um trabalho novo, uma missão nova, um novo cep.

E, perguntado como vão as coisas, diga simplesmente: “Cansei”.

Essa afirmativa tão simples vai te dar um alívio tão grande e tão raro que você ficará louco para começar outra vez.

 


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