O cansaço me venceu! Que maravilha…

À convite, fui a um batizado numa determinada igreja evangélica. A cena, inédita para mim, foi bonita.  Os novos fiéis, amigos de infância, sabem da minha abertura espiritual. Penso que todo mundo tem que acreditar em algo. Isso movimenta a vida e acaba reenergizando as esperanças, pois algumas delas falecem como se fossem atingidas por um raio de decepção.

O sermão foi centrado na Bíblia, claro. Foram lidos trechos e mais trechos; e veio a frase do pastor: “com fé, nada poderá te vencer”.

Daí algumas reflexões espiritualmente apartidárias.

Eu penso diferente.

Algumas coisas precisam nos vencer e essa vitória do fato, do acontecimento, do sentimento, da partida, do cansaço, do que não serve, não tem qualquer ligação com falta de fé em sua genuína conceituação de ser a abstinência total do estado de dúvida.

O amor precisa nos vencer, nos fazer melhores, nos deixar emocionalmente abalados.  Extasiados.

O cansaço precisa nos vencer para que saibamos retomar nossa energia evaporada por uma briga insana com o “nada” e até mesmo, assim taxativamente vencidos, partir para outras aventuras e caminhos, deixando a carga para trás, abandonada como uma mala pesada por excesso de bagagem. Precisamos ficar exaustos com situações onde somos mal tratados, com pessoas que não nos querem mais, com trabalhos árduos sem alegrias, com falta de trocas.

Vencido, significa que você já lutou e deu seu gás e que haverá um abandono saudável do que não combina mais com as suas vontades e novos desejos virão em forma de frescos horizontes.

Dar-se por vencido também não tem relação com o fracasso, esse sentimento solitário que nos perturba e nos faz tão impotentes e desmerecedores de créditos externos. Onde ocupamos, fraquejados, a insólita posição de culpado e juiz ao mesmo tempo. Algozes da própria vida, enquanto essa escorre por supervalorizadas culpas e medos imaginários, na maioria das vezes.

Que o amor te vença, te enlouqueça, te rejuveneça daquele cansaço ardil. Que você, cansado, durma como um bebê. Que as coisas cansativas te nocauteiem imediatamente e que você procure curar seus hematomas simplesmente descansando. Simplesmente saindo de um estado escravizante de fadiga para um estado de repouso total dos teus incômodos. Um amor novo, um trabalho novo, uma missão nova, um novo cep.

E, perguntado como vão as coisas, diga simplesmente: “Cansei”.

Essa afirmativa tão simples vai te dar um alívio tão grande e tão raro que você ficará louco para começar outra vez.

 

Sou domingo….

 

“Eu me defino como aquele que gosta de ler jornal no banco da praça.

Sou simples. Sou domingo.

Não sou segunda extressante, nem sexta estafada.

Sou aquele sol quentinho, tipo 10 da manhã.

Sou 40 centavos de troco do jornal que custa 2,60.

O ônibus escolar, estacionado, avisa que as crianças estão dormindo.

O taxista, sem cliente, ouve música para passar o tempo que vai passar de qualquer modo.

A árvore grande me refresca.

O cenário é perfeito!

O menino da banca me pergunta “O Senhor quer mais alguma coisa?”, e eu respondo: “Não filho, eu já tenho o suficiente”.

Ele não entende.

Eu me entendo.

Eu sou domingo”

 

 

Eu sou a mina

Eu quero que acabe logo a viagem que eu fiz em suas exigências.
Me perdi no caminho e suas placas eram cada vez menos indicativas.
Eu quero voltar para minha estrada, para minhas trilhas.
Eu quero voltar deixando a bagagem para trás. O peso dela me tornou curvada, me debilitou. Me impediu.
Eu quero novas direções e até me perder em meus passos.
Eu quero retornar ao meu ponto original, sentir minhas pegadas.
Eu quero pisar em sentido contrário.
Eu sou a mina.
Eu quero voltar para mim.
 (Adriana Araf)

Oração dominical

Deus é o que eu sinto.

É rio. É primavera.  Chuva que molha a terra esquecida de vida.

Luz.  Horizontes.  Quem me cerca.

Deus é um ser incansável que me busca amar todos os dias, aos domingos.

Deus de alegrias. Acima de tudo. Prepara-me novos caminhos.

Dons.

Sons.

Deus: santifica meus esforços…

 

 

Choroso profundo

“Enterro de criança é assim: um choroso mais profundo.

Choramos sobre a semente que não germina, sobre a vida que não seguiu seu curso. Pela perda da chance.

Enterro de criança é dor de gente que arou a terra e não teve colheita, porque o inverno chegou mais cedo. E para ficar.

Enterro de criança dói mais do que o dos outros. É esperança que não sorri.

Enterro de criança é roupinha nova dobrada pela mãe. É não ter Dia dos Pais.

É questionar Deus sobre o inquestionável.

É se convencer que as crianças não pertencem aos homens”

(*feito à pedido de um padre, que o leu numa missa presencial celebrada  diante de um túmulo branco, pequeno, numa cidadezinha de interior)


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