problema tem o tamanho que ele tem…

Não use lentes de aumento nos seus problemas.

O problema tem o tamanho que ele tem.

Nem maior, a ponto de você se desesperar; nem menor, a ponto de te alienar.

São fatos decorrentes da própria vida. Altos e baixos de cada um.

Ah, se der, use lupas nas soluções…

(Adriana Araf)

Perfume de Mulher…

“Ela é morena. Cabelos Finos. Estatura média. Olhos castanhos. Ela é de todo anormal. Fisicamente não pára o trânsito, mas transita por olhares incomuns. Ela é um feminino aromático. A sua beleza está naquilo que não pode ser visto, no perfume natural de seus movimentos. Ela é amadeirada. Terra, canela. Ela é patchouli. A sua fragrância me sufoca e me oxigena ao mesmo tempo. É incandescente. É charme transparente. Ontem a vi prendendo seus cabelos, como se me prendesse também. Fiquei entre grampos naquele coque e foi o sfuciente para me deliciar com aquela nuca à vista. Aproximando-me, senti o aroma daquele pedacinho desnudo. Penso que o amor aconteça quando descobrimos o perfume natural de alguém. A essência única, a química inigualável, que nos toca com dedos invisíveis e nos atordoa. Não é possível amor sem perfume.”

Ela anda de tamancos…

“Hoje de minha janela a vi passar. Isso não é novidade pela repetitiva cena em meus nada movimentados dias, mas é a maior das minhas bisbilhotices. De vestido godê, 38, laço da cabeça combinando com a fita da cintura, que segura seus pretos cabelos, ela passa. Ela é a minha desgraça que desfila. Uma desventura ocular pomposa, fogosa, ardilosa, traquejante e sedutora. Anda de tamancos não sei porquê. Quero acreditar que seja para tilintar os meus sentidos. Acordar meus delírios noturnos nas tardes secas da vida que levo. E ela sabe que seus tamancos e pelagem refletida sob o sol me fazem bem. Aquela sensação gostosa dura o momento de sua morena passagem. Nem mais. Nem menos. Depois eu volto para minhas leituras e ao meu tabagismo crônico. Amanhã tem. Somente aos domingos não tem. Daí eu corro pra missa confessar meus pecados de alpendre, mesmo acreditando que pecar com os olhos é ato de sumária absolvição”.

De onde vem a cura?

 

O antídoto está em nós mesmos.

O tratamento começa com o reconhecimento dos próprios erros, passa pela vontade imensa de sarar das próprias agruras e termina com muito ar puro na alma…

(Adriana Araf)

 

 

Despedida de uma paixão…

Acabrunhado ele se aproximou dela, como um fiel junto a um confessionário. Tinha tudo a dizer, mas lhe faltava coragem. Sentia dor ao ter que encarar o que não queria fazer. Num misto entre “não quero dizer isso, mas tenho que falar isso, embora não tenha certeza disso”, ele chegou, sorumbático. Esse dia não tocou as madeixas e nem sua cor linda assim, como sempre fazia. E, num verborrágico contido, curvou-se a dizer “Você conseguiu que eu desistisse de você. Amei você todas as horas, todas as chuvas, todas as sequências de calores, todos os seus vestidos transparentes, todos os seus malditos brincos enfeitiçantes. Em ti há uma cruel beleza que me perturba, um gingado excessivamente flexível atordoante. Gosto, até mesmo, do céu da tua boca, com meus beijos insanos. Mas, veja bem, os beijos não são mais nossos, são apenas meus. E por me encontrar num estado lastimável de singularidade em tudo, hoje vou deixá-la. O Motivo? Vou cuidar de parte de mim. Me segrego nessa despedida e espero que meu padecimento seja vencido pela regeneração de outro amor.” Sem bater a porta, saiu com a roupa do corpo, cuja ponta da camisa lhe serviu de lenço. Homem não chora? Quando ele é vencido por um desespero de paixão sim. Lágrimas de amor sempre têm a mesma origem.

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