Buscar o que foi para ser

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“Há um tempo em que é preciso recosturar, reformar, reavivar as nossas roupas usadas que tanto nos deram alegria quando novas e que hoje, apesar de gastas, continuam quentes, macias e confortáveis porque possuem o formato do nosso corpo. Não devemos esquecer nossos antigos caminhos só porque achamos que nos levam sempre aos mesmos lugares, devemos aproveitá-los para encurtar a distância que nos levam a novos.
É tempo de travessia: temos que ousar em fazê-la para nunca ficarmos a margem de outros”.

Fernando Pessoa

Astenia emocional

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“(…) Decretei-me, mesmo sem forças, não satisfazer mais suas loucuras e nem atender aos seus cansativos questionamentos. Isso vai desde colocar saias de flores que tanto me fazem feminina, como não dar horários aos meus sopros de liberdade. Quero viver sem torturar meu pobre espírito que desconhece a paz há muito tempo. Preciso abandonar suas asperezas e experimentar de delicadezas sucessivas e abundantes. Preciso ser acalentada pela nobreza humana que existe em mim. Seu tratamento é escabroso e não condiz com o que minha alma espera. De dia, faço torcida silenciosa para que a noite não venha. Nas noites, ao teu encontro áspero, rogo para que o sol venha e me reponha a energia roubada por momentos torpes.  A astenia impera e é visível a anemia emocional por todos os cantos da minha desgastada pessoa. Meu olhar é seco, minhas mãos se encerram em gestos básicos. Minha intenção nada escondida é me tornar invisível. Padeço em pedaços sem me dar conta de como farei minha indispensável reconstrução. Sinalizo fim, quando o que quero é um começo (…)”

Adriana Araf

Cântico XIII

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Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

Cecília Meireles

 

Tardança

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“(…) longas manhãs te esperei segurando uma xícara de café quente na vã tentativa de aquecer aquela dolorida tardança. Longas tardes olhei o difuso horizonte esticando meu turvo raio de visão para buscar ver o que meus olhos necessitavam enxergar. Longas noites passei vagueando pela casa, de um cômodo para o outro, até adormecer com a roupa do corpo embrulhada por um intenso cansaço emocional. Tudo por ti. Uma dedicação insana. Manhãs cálidas, tardes chuvosas, noites gélidas. Dias e dias sendo sacrificados por nada. Nenhum movimento. Nenhum aceno. Nenhum elogio ou aroma. Nenhuma carta ou bilhete. Flores murchas, cachorro sem latido e as mesmas vestes esgarçadas compondo meu corpo inanimado. Nenhuma energia. Nenhum retorno. Tudo mudo e sem piedade. Foi-se o trabalho, acabaram-se todas as comidas da despensa. Os vinhos viraram uma soma de garrafas vazias, com bordas marcadas de vermelho, abandonadas no átrio da casa (…)”

Adriana Araf

Sobre a tolerância

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(…) Em dias atônitos, seu ou dos outros, trabalhe sua tolerância. E em dias calmos também. Se você olhar para trás vai perceber (e se convencer) que quase tudo de contrário que te aconteceu o foi por falta de tolerância. Labora fortemente isso. Seja forte nisso e vença seus excessos para se manter grande diante dos fatos tidos como contrários aos seus pensamentos e percepções. Isso requer treino e uma boa dose de coragem. Começa com a lição quase besta de tão óbvia de que o mundo se soma e cresce pelas diferenças. Aí está o charme, o divino, o despertar, o sagrado, o bom da vida. Como grade meio, temos a disciplina de não colaborar apenas com o “igualzinho” e o predefinido, já que as diversidades necessitam de harmonia e espaço. De resto, viva. Você veio de uma forte mistura de crenças, desejos, experiências. Você não é cultura única, considerando que a cultura é multiforme. Empenhe-se em prol de uma postura de bem-querer ao que te apresenta estranho. Isso vai colaborar com seus avanços espirituais e mentais. O diferente te ensina. O igual é manutenção (…)”.

(Adriana Araf)


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