Assuntos de mera convivência

“Talvez seja a admiração o sentimento alicerce do amor. Sem ela restará a necessária, porém indigesta, tolerância. Sem o saboroso ingrediente, a vida seguirá normalmente, entretanto a tolerância estará ali, intrépida, fazendo insossa companhia aos casais, segurando seus interesses comuns para que tudo seja milimetricamente preservado. Mas, claro, faltando o tempero da admiração, faltará a graça, a graciosidade, o vigor. O algo mais. Os dias serão curtos no inverno e longos no verão. Vai cair chuva, virão longas tempestades, todos irão à praia e depois às lojas comprar casacos. E a admiração, em posição-chave nos relacionamentos, ficará em segundo plano querendo ocupar o primeiro, agindo silenciosamente dentro de cada um para expulsar a fastidiosa tolerância ou, numa eventualidade quase que descartada, fazer as pazes com ela.”

(Adriana Araf)

Demais…

 

 

Os dias…

“Doura a sua pílula com o desenvolvimento do seu próprio talento. Isso poderá ser feito a partir da tomada de consciência de que tens condições favoráveis de tempo e modo para tal. Muitas vezes vivemos nossos dias com as quatro estações acontecendo ao mesmo tempo e isso requer uma certa adaptação térmica, todavia se prostrar porque o inverno está rigoroso demais é perder uma chance luminosa de apreciar o verão igualmente constante”.

(Adriana Araf)

Definição de partida

099

“Só morrem, desaparecem de vez, as pessoas que nunca foram amadas”

(Zélia Gattai, em Città Di Roma)

Notável

A obra-prima de Haruki Murakami, Crônicas do Pássaro de Corda, contendo 632 páginas em letras pequenas, o que, na projeção, se tivesse caracteres maiores, certamente iria a mil, trata-se de um livro de textura de seda. Tudo o que vem da ponta de seu lápis é singular.

Na página 359, há esse relato de um simplório dia do cotidiano do personagem principal. Muito delicado.

(Adriana Araf)

“De finais daquele estranho Verão até à chegada do Inverno, não ocorreu na minha vida nenhuma mudança significativa digna desse nome. Os dias começavam e acabavam sem histórias. Em Setembro, choveu muito. Em Novembro, houve dias de tanto calor que todo mundo suava em desespero. Fora o tempo, a dar os ares das suas características, os dias eram todos iguais. Da minha parte, ia quase sempre à piscina, nadava várias distâncias, passeava, preparava três refeições por dia. Procurava, assim, empregar as minhas energias apenas em tarefas concretas e práticas. Apesar disso, volta e meia eu tinha um profundo sentimento de solidão. A água que bebia, o próprio ar que respirava faziam-me sentir na pele longas agulhas de ponta afiada. As páginas dos livros que folheava ameaçavam-me com seu brilho metálico, como o fio de uma navalha. Às quatro da madrugada, quando tudo estava em silêncio profundo, podia ouvir crescer as raízes da minha solidão. E, contudo, sozinho e isolado, há quem não me deixasse em paz (…)”.


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