Reflexão de uma escritora

“Sou assim mesmo, tenho o gosto de inocência em minha boca. Quero tudo ao mesmo tempo e não me conformo com respostas pela metade. Esta minha mania de querer explicação pra tudo já me rendeu algumas dores de cabeça. Mas é assim mesmo, eu gosto de puxar o fio da meada, dar os nós, tecer os fios e fazer a colcha.
Gosto de gente por inteira e que como eu, muda sempre que for preciso, mas nunca se dá pela metade. Espere sempre isso de mim.
Alegria pra mim tem que ser completa, o choro tem que ser as bicas. Sou exagerada por natureza, por isso se for me abraçar que seja bem forte e bem intenso. Meus sonhos são imensos e se misturam com realidade de tal forma que me atrapalho.
Não me traga questões complexas, pois costumo tentar definir e decifrar ao mesmo tempo, mas meu limite é pequeno; se não resolvo na hora, costumar deixar em um canto.
Cuidado comigo, sou bruta e não aceito grosserias. Costumo revidar, mas não com a mesma moeda, revido com a minha que pode ser um silêncio ou um largo e atrapalhado discurso. Sou também meio bicho do mato, gosto do meu canto, por isso posso sair por ai, mas voltar depressa para meus cheiros, meus lençóis, meu refúgio. Sou também cheia de projetos, desde fazer uma viagem à África por uma boa causa social, escrever um livro, que, aliás, nunca comecei, até criar uma ONG.
Nada me amedronta, nem a distância, nem a lonjura, aliás, me amedronta o egoísmo, a inveja, a maldade, a dureza do coração. O resto eu vou levando, nem sempre com o jeitinho que eu gostaria, mas levo.
Queria ser melhor, mas faço o que posso. Apesar de tudo, meu coração é de açúcar. Se brigo, no mesmo instante me arrependo e volto atrás. Gosto muito de tocar o coração e da mesma forma um afago me derrete.
Um dia estou triste e no outro novinha em folha e ainda me emociono com flores, carinho, bondade, amor. Experimente me entender, neste emaranhado de coisas.
Para mim o mundo é pequeno e nada me amedronta. E eu ainda acabo acreditando que o pra sempre é de verdade e o nunca mais, ilusão.”

(escritora Ita Portugal)

Fontes: http://www.contioutra.com/linda-reflexao-de-ita-portugal/#ixzz4Bq16oTqF e http://itaportugal.com.br/

Ainda nela…

Dei um abraço de despedida nela. Desejei-lhe felicidade. Falei que queria seu bem. Ela disse as mesmas coisas. Nenhum dos dois se ofereceu para manter contato. Ambos, gosto de acreditar, tínhamos respeito demais um pelo outro para fazer aquilo.”

(Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara)

Da recente obra…

um trecho delicado, superlativo e interessante:

“Mal nos falamos por meses. Nem conseguíamos nos tocar. Parte disso era exaustão, mas também estávamos envergonhados de nosso fracasso mútuo, da sensação de injustiça, mas ao mesmo tempo inabalável de que nós dois poderíamos ter feito mais, de que o outro não se entregara como a situação exigia. Fico surpreso de ver como paramos de nos falar completamente. Não nos falamos por muito anos. Não por mágoa, mas por qualquer outra coisa. E então, um dia, ela me telefonou. Ela estava na cidade para uma conferência e me convidou para almoçar. Foi esquisito. Uma sensação ao mesmo tempo estranha e familiar ouvir novamente aquela voz com que eu tivera milhares de conversas sobre coisas importantes e também banais (…). Às vezes eu achava que havia algo não físico nos conectando, uma longa corda que esticava…quando ela puxava sua ponta, eu sentia a minha. Onde quer que ela fosse, onde quer que eu fosse, haveria sempre aquela corda iluminada e retorcida que esticava e puxava, mas nunca se rompia. E a cada momento que fazíamos nos lembrava do que nunca mais teríamos”. 

(Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara)

Uma obra que chega

Adquiri a recente obra de uma escritora americana (e também jornalista) Hanya Yanagihara. Finalista de alguns prêmios de impacto (e premiada por outros), a obra exige fôlego para acompanhar os quatro personagens e suas vidas na cidade de Nova York: 782 páginas, diálogos ricos, superlativas e criativas ocorrências. Deixe-me ver…

Para saber mais: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/entre-premios-polemicas-uma-vida-pequena-chega-ao-brasil-19199176

Vaziez

“É uma nascente que não nasce; é um poente que não vai. É uma decisão que não se toma. É uma mistura de cores sem padrão. É um mal-estar geral. A comida pouca, o dinheiro curto, o governo desgovernado. É o permanente estado de liquidação. É o telefone que não toca. É a mancha do sofá que não saí. É a perna da estátua que não cola. É o machucado que o teu silêncio provoca. É o nosso fracasso. É um vai-e-vem mental à toa. É o trem que passou e me deixou na estação. É o zíper da mala que não fecha. É a roupa obsoleta guardada para ocasiões que não chegam.  As tranqueiras da despensa. A comida vencida do gato. É o que não avança. É o que retroage. É o frio causando saudade do calor. É a falta de amor. É o copo vazio. A surdez social. O vácuo. A vaziez.”

(Adriana Araf)


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