Outono, Inverno

“Era difícil dizer quando chegara ao certo o Inverno. Primeiro, ocorreu um arrefecimento das temperaturas noturnas. Depois, chegaram os dias de chuva ininterrupta, as rajadas desordenadas do vento atlântico, a humidade, o cair das folhas e a mudança das horas nos relógios. Continuavam a verificar-se, em todo caso, tréguas esporádicas, manhãs de céu limpo e luminoso, que permitiam que se saísse de casa sem agasalhos. Mas tratava-se de qualquer coisa como os sintomas enganadores da remissão de um paciente sentenciado à morte. O parque vizinho se transformou numa superfície desolada de lama e de água, iluminada apenas pelo clarão riscado da chuva nos postes públicos. Certa noite, quando o atravessava debaixo de um aguaceiro, veio-me à memória um dia de calor intenso do Verão anterior que, deitado no chão, tirara os sapatos e acariciara a relva com os pés descalços, enquanto o contato direto com a terra me trazia uma impressão de liberdade, fazendo-me sentir tão em casa no mundo como se estivesse em meu quarto.”

(Alain de Botton, A Arte de Viajar, 6ª. edição)

Outro fragmento

“Tudo quanto pertence ao passado parece ter caído ao mar. Tenho recordações, mas as imagens perderam a nitidez. Parecem mortas e desconexas, como múmias devoradas pelo tempo. Se tento recordar a vida, consigo apenas alguns fragmentos estilhaçados. É como se uma das minhas existências tivesse terminado e exatamente onde eu não sei. Não devo nenhuma lealdade, não tenho responsabilidades, nem ódios, nem preocupações minhas ou alheias me impactam. Não sou pró nem contra. Sou neutro. E o que é mais estranho é que a ausência de qualquer relação entre ideias e vida não causa angústia nenhuma, desconforto algum. Os acontecimentos do dia se dão tranquilamente, sem aparato, de quando em quando apenas uma presença humana, um ego, um toque de vaidade. No entanto, há dias em que o sol não brilha e eu saio do caminho trilhado e penso famintamente, apesar da minha sinistra satisfação.”

(Henry Miller, autor americano, em Trópico de Câncer)

Outra passagem

“O seu sofrimento era quase transcendental. Parecia lidar com a dor como se esta fosse uma parte da existência que ela tivesse aprendido a utilizar. Possuía uma força mental inquietante. Todos eram afetados por ela de uma maneira ou de outra. Ela trabalhava, aprendia e ajudava a manter o ritmo das coisas. A atitude dela era uma completa dissonância. Algo íntimo, puro e inesperado. Tinha um riso diferenciado. Dele, um som que dava a impressão de ocultar alguma paixão profunda.”

(Os Nomes, de Don Delillo)

Depuração

“Quem não põe a dormir o pensamento, quem não esquece de si próprio, nem arranca as vaidades e soberbas, não se torna música quando canta, nem em dança quando dança, nem em bebedeira quando bebe. Esse não sai de sua prisão, não viaja, não visita seu animal interior e nem sobe até seu espírito. Esse não vive. Perca-se, vai, viaja, sai, aproxima-te do espírito.”

(Mario Vargas Llosa, em seu “Lituma nos Andes”)

Vozes Anoitecidas

 

(Mia Couto)


Página 30 de 121« Primeira...1020...2829303132...405060...Última »