Simplicidade

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Deveriam decretar o “Dia das Coisas Simples”. Daí o viveríamos como se nada tivesse tanto valor assim. Falaríamos com as pessoas por falar, beberíamos cafés sossegados, escorregaríamos lentamente nossas mãos nas faces amadas. Vestiríamos roupas folgadas e caminharíamos sem perigos na mente e nas esquinas. Seria um triunfo sobre a ansiedade que ataca os momentos e desnutre nossos corpos. Mais confiantes, seguiríamos calmos e bem humorados. Apanharíamos flores sem sermos xingados, comeríamos frutos limpos e adormeceríamos sem o cansaço da vida que levamos. Observaríamos o vento, o silêncio e a nós mesmos. Um dia de trégua e com tempo para tirarmos boas fotografias e espreitarmos no dia seguinte o que realmente vale à pena.

Adriana Araf

Passagem

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“(…) Chegaram-me fotos de seu rosto em momento feliz e em local indecifrável. Corremos das coisas, contudo as coisas corridas correm pra nós quando percebem um comando humano desobediente chamado saudade. Você parece mais magro e com cabelos mais ralos. Nota-se disputa com o tempo e a vitória de uma jovialidade reincidente,  mantendo o estro nos olhos. Observei suas roupas e mãos. Ainda bem que fiz isso sozinha, pois há outra verdade que soa silenciosa para quem observa detalhes: a coisa da qual se corre ainda é chamativa, desejada e, por vezes, buscada pelo observador (…)

Adriana Araf

Feliz Ano Todo

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2018: um ano de perdas de todos os lados. Gente, esperança, empregos. Nada sobre o nada. Um prato redondo sem cantos para esconder a refeição ruim. Perseguições intensas, rompimentos bobos, medo e insegurança. Um sufoco sem alívio. Uma dor-espinho sem remédio. Um mal-estar. Cansaço. Aflição. Se almoçou, ficou sem o jantar. Se jantou, não dormiu. Na cama, remontados pesadelos sobre o porvir. Se pulou cedo,  vieram os sofridos porquês. Se levantamos tarde, somamos prejuízo diante das parcas oportunidades. Mesmo despertos, continuamos de olhos fechados por conveniência social. Um ano sem sono repousante e repleto de dias escaldantes. Dinheiro curto num estado permanente de liquidação. Tudo nas ruas. Cortinas velhas escancaradas mostrando nudezes não apenas do rei. Que venha 2019 trazendo gente, esperança, trabalho. Estações definidas e menos testes de sobrevivência.

Adriana Araf

Fragilidade

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Vive cada um de nós “feliz e tranquilo” em seu cantinho, em seu universo de aparências, como se nenhum dique pudesse romper, como se nenhum relâmpago medonho pudesse surgir repentinamente sobre nossas cabeças, destruindo nossa realidade terrivelmente bela, ou terrivelmente melancolica, e nos fizesse mais pobres e nos fulminasse de morte.

Certo é que o estado de encantamento, este relâmpago ou este despertar, esta vida agarrada à própria realidade não dura muito. Traz a morte em si. Dura enquanto o homem pode suportar tal estado. E depois acaba ou pela morte, ou pelo retorno ao irreal, ao sonho, ao invisível. Nesta margem estreita dos conceitos, dos sistemas, dos dogmas, das alegorias, vivemos  nove décimos de nossas vidas.

Assim vive o homem, este ser deveras pequeno, todo feliz, em ordem, tendo talvez envergonhada, escondida em suas casas, em seu andar, ou no andar de cima, ou no debaixo, ou mais além, uma consciência de seu passado, de sua origem, de seus pressentimentos, que são, afinal, os mesmos que tiveram seus antepassados; e tem ainda, por cima de sua cabeça, uma ordem, um estado, uma lei, um direito, um exército – até que, enfim, num segundo, tudo isto se destroi e desaparece. O chão e o teto viram fogo e cinzas; a Ordem e o Direito tornam-se ruínas  e caos; a paz e o bem-estar convertem-se em ameaças de morte; faz-se tudo em chamas e é consumido, e nada lhe resta senão a realidade monstruosa e medonha.Podemos dizer que foi Deus, o terrível; ou o Invencível; ou o Incompreensível e Tremendo. Mas aqui entre nós, o nome nada explica, nem esclarece e nem conforta.

Para alguns, basta uma doença, uma desgraça ocorrida comum parente mais próximo, ou uma momentânea provação, ou o despertar de um pesadelo, ou de uma noite insone, para que se veja diante do inexorável.

E, então, é posta em questão, por algum tempo, toda ordem, todo bem-estar, toda segurança que usufruia.

Toda fé.

Toda ciência.

(Hernann Hesse, Para ler e guardar)

Não te rendas…

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Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso:
continuar a viagem,
perseguir sonhos,
destravar os tempos,
arrumar os escombros,
e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,
porque o quiseste e eu te amo,
porque existe o vinho e existe o amor,
porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
tirar os ferrolhos,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto em meio ao nada,
baixar a guarda e estender as mãos,
abrir as asas
e tentar de novo
celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:
mesmo que o frio queime,
mesmo que o medo morda,
mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo na tua alma,
ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo início,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, por eu te amo.

(Mário Benedetti)


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