Leitura Sensível II

“(…) Sentia-me obrigada a lutar em duas frentes: ater-me firmemente à realidade dos fatos, refreando o fluxo das imagens mentais e dos pensamentos; procurar – e ao mesmo tempo recompor as forças, imaginando-me como a salamandra, que é capaz de atravessar o fogo sem se queimar. Não me deixaria sucumbir, encorajava-me a agir. Defender-me de todas as formas e modos. Receava sobretudo a minha incapacidade crescente de me deter numa ideia clara, de me concentrar numa ação necessária. As inflexões bruscas, desgovernadas, assustavam-me. “És uma mulher de hoje, agarra-te a tudo o que possas, não recues, não te percas, mantenha-se à direita. Sobretudo não te abandones a monólogos divagantes, nem à maledicência, nem à raiva. Abole os pontos de exclamação. Organiza as tuas defesas, conserva a sua inteireza”. O meu dever, pensava, é provar a minha capacidade de continuar saudável (…)”

(*Elena Ferrante, algumas outras páginas lidas de Crônicas do Mal de Amor)

Leitura sensível I

“Resolvi-me: bastava de sofrimento. Aos lábios da falta de felicidade, devia responder com os da minha desforra. Não era uma mulher que se deixa desfazer em bocados pelos golpes do abandono e de ausência até enlouquecer, até morrer. Recebera, na verdade, alguns estilhaços, mas, de resto, continuava inteira. Estava intacta e intacta continuaria a estar. Sou uma mulher que reage (…)”

Elena Ferrante, em  Crônicas do Mal de Amor

Mais…

Um trecho literário

“No íntimo da sua alma, contudo, esperava um acontecimento. Como os marinheiros aflitos, percorria com os olhos desesperados a solidão da sua vida, procurando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte.
Não sabia ela qual seria esse acaso, o vento que lhe traria para perto, nem para que praia se sentiria levada, se seria chalupa ou navio de três pontes, carregado de angústias ou cheio de felicidades até às escotilhas.
Mas, todas as manhãs, ao acordar, esperava que viesse naquele dia e escutava todos os ruídos, levantava-se em sobressalto, surpreendia-se de que não tivesse vindo; depois, quando o sol se punha, cada vez mais triste, desejava estar já no dia seguinte”.
(Gustave Flaubert , em “Madame Bovary“)
* para outros trechos interessantes: http://www.humanarte.net/bovary-trechos.pdf

 

Palavras Sábias de Cora


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