Ainda nela…

Dei um abraço de despedida nela. Desejei-lhe felicidade. Falei que queria seu bem. Ela disse as mesmas coisas. Nenhum dos dois se ofereceu para manter contato. Ambos, gosto de acreditar, tínhamos respeito demais um pelo outro para fazer aquilo.”

(Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara)

Da recente obra…

um trecho delicado, superlativo e interessante:

“Mal nos falamos por meses. Nem conseguíamos nos tocar. Parte disso era exaustão, mas também estávamos envergonhados de nosso fracasso mútuo, da sensação de injustiça, mas ao mesmo tempo inabalável de que nós dois poderíamos ter feito mais, de que o outro não se entregara como a situação exigia. Fico surpreso de ver como paramos de nos falar completamente. Não nos falamos por muito anos. Não por mágoa, mas por qualquer outra coisa. E então, um dia, ela me telefonou. Ela estava na cidade para uma conferência e me convidou para almoçar. Foi esquisito. Uma sensação ao mesmo tempo estranha e familiar ouvir novamente aquela voz com que eu tivera milhares de conversas sobre coisas importantes e também banais (…). Às vezes eu achava que havia algo não físico nos conectando, uma longa corda que esticava…quando ela puxava sua ponta, eu sentia a minha. Onde quer que ela fosse, onde quer que eu fosse, haveria sempre aquela corda iluminada e retorcida que esticava e puxava, mas nunca se rompia. E a cada momento que fazíamos nos lembrava do que nunca mais teríamos”. 

(Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara)

Uma obra que chega

Adquiri a recente obra de uma escritora americana (e também jornalista) Hanya Yanagihara. Finalista de alguns prêmios de impacto (e premiada por outros), a obra exige fôlego para acompanhar os quatro personagens e suas vidas na cidade de Nova York: 782 páginas, diálogos ricos, superlativas e criativas ocorrências. Deixe-me ver…

Para saber mais: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/entre-premios-polemicas-uma-vida-pequena-chega-ao-brasil-19199176

Vaziez

“É uma nascente que não nasce; é um poente que não vai. É uma decisão que não se toma. É uma mistura de cores sem padrão. É um mal-estar geral. A comida pouca, o dinheiro curto, o governo desgovernado. É o permanente estado de liquidação. É o telefone que não toca. É a mancha do sofá que não saí. É a perna da estátua que não cola. É o machucado que o teu silêncio provoca. É o nosso fracasso. É um vai-e-vem mental à toa. É o trem que passou e me deixou na estação. É o zíper da mala que não fecha. É a roupa obsoleta guardada para ocasiões que não chegam.  As tranqueiras da despensa. A comida vencida do gato. É o que não avança. É o que retroage. É o frio causando saudade do calor. É a falta de amor. É o copo vazio. A surdez social. O vácuo. A vaziez.”

(Adriana Araf)

Se…

“Se tudo passa, porquê então sou eu um porto onde muitas coisas ficam atracadas, envelhecendo, como barcas juntando mofo? Se tudo passa, porquê não acontece um furacão e revira tudo como forma de forçar uma reconstrução? O que incomoda é essa paisagem igual, sujeita a chuvas caudalosas e sol escaldante, ali, com tudo exposto, sem proteção, carcomido por um tempo sofrido que custa a passar, como se a minha própria natureza pudesse absorver por misericórdia algo que nem ela mesmo aceita…”

(Adriana Araf)


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