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Como é difícil prever o futuro

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“É do escritor português Miguel Torga a frase dita por tantos de diversas formas “Como é difícil prever o futuro”. Na infância, o futuro pouco importa. O futuro não passa de um Natal que trará presentes e parentes numa cena familiar. Na adolescência, um não ao futuro, pois basta viver intensamente o presente com a autoridade ainda pueril de que se pode tudo, ainda que apenas por um lapso exíguo de tempo. Com a juventude, o amor, a profissão e os sonhos empacotados numa linda névoa de energia e vontades maior do que as frustrações. Na fase adulta, o mandamento dito, repetido, esculpido e não muito praticado “o futuro a Deus pertence”. Na velhice, ou ele representa quase tudo o que se fez ou representa a amargura do que deixou de ser feito. Na boca da vizinha que insiste em morar na janela da vida dos outros, o decreto mordaz: “Fulano não tem futuro”. Ah, ciganas, me digam onde mora a felicidade enquanto eu tiver tempo, enquanto eu queira desembrulhá-la como presente, enquanto há energia sem nostalgias, enquanto a vizinha não tenha me reparado, enquanto a minha janela esteja aberta para a minha vida à espera da mais linda paisagem.”

(Adriana Araf)

Cena íntima

 

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(…) três minutos depois de sua partida estava eu ali, debilitado, enfraquecido, silente, preenchido por um estranho entulho de coisas acumuladas que deveriam ter sido ditas, mas não o foram. Eu, meio sem rumo, lia os ponteiros do relógio. Embora meio-dia, nenhuma fome física me invadia. A fome que me consumia era de amor. Dali em diante apenas dois caminhos restariam: ou fazia um regime sentimental forçado para me desintoxicar de tantas emoções contrárias ou morreria de inanição (…)

(Adriana Araf)

Simples assim

 

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“Só se pode ser feliz simplificando, simplificando sempre, arrancando, diminuindo,  reduzindo (…)”

(Florbela Espanca, inDiário do Último Ano“)

 

Restantes

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“O que sobrara? Essa é a pegunta que não se calava dentro de mim em meio a uma quase certeza de que as coisas boas duram pouco. Ou quase nada. Ou o suficiente para despertar em mim um desejo incontrolável de eternidade. Aquela insólita batida na porta com as chaves deixadas para trás, um café quente que se tornara gradualmente frio dentro daquela caneca velha, roupas estendidas no varal da área de serviço. E um discreto aviso na porta da geladeira de que seria melhor pagar a conta de luz no dia, sob pena de cortes. Tudo sendo cortado, escurecido e eu ainda ali observando aquele maldito terceiro aviso da companhia de luz (…)”

(Adriana Araf)


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