À noite…

“Acordado na cama a pensar numa porção de coisas indefiníveis. Tenho a sensação de que tenho um corpo eminentemente perecível e caduco sem mais nenhum remédio ou salvação. Penso no que me falta para ser um homem aceitável. Outras coisas ainda penso sem ligação ou coerência, assim quando o vento semeia coisas várias de muitas bandas. Olho (não deveria) o relógio. Prometi não olhá-lo. Como são fracas as minhas promessas. Nove e meia. Espanto-me. Outra vez. Espanto-me de novo em virtude de um tempo que passa muito mais depressa quando se está a pensar e a sentir, quando se tem o espírito ocupado. Não há nada que faça morrer mais depressa do que estar alheio e indiferente vendo a vida passar.

Deve-se viver a vida como se monta à cavalo – agarrá-la pelas crinas, esporeá-la. Fazê-la galopar em frente no relinchar de sua natureza e imaginar que o galope não tem fim. Andar horizontes e mais horizontes sob um avanço incontido. Não ligando muito quando o chão é de pedregulho e a água escasseia a sede. A felicidade parece ser, afinal, um ter nas mãos as rédeas que nos sirvam para alguma coisa.”

(Fernando Aires, em seu fabuloso Diário “Era uma vez o Tempo”)

 

 

Aprender a Ver

“Aprender a ver – habituar os olhos à calma, à paciência, a deixar que as coisas se aproximem de nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados.
Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam.
Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não «querer», o poder diferir a decisão.
Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo.
Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, — quase tudo o que a rudeza afilosófica designa com o nome de «vício» é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir.
O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o fato pequeno, o estar sempre disposto a meter-se, a lançar-se de um salto para dentro de outros homens e outras coisas, em suma, a famosa «objetividade» moderna é um mau gosto, é algo não-aristocrático par excellence.”
(Nietzsche, em “Crepúsculo dos Ídolos”)

A coragem do sonhador

Sempre que nos assumimos como “sonhadores”, ficamos mais perto de tornar qualquer sonho em realidade e de inspirar quem quer que seja com essa nossa conquista, como tal, é de louvar quem carrega esta palavra na boca e o seu significado no peito. Sonhar está ao alcance de todos, é um fato, mas poucos o fazem pois poucos são aqueles que o assumem como uma extensão de si mesmos. Quantas pessoas afirmam que têm um sonho? Poucas, muito poucas, e muitas dessas poucas nem chegam a fazer nada para concretizá-lo, ou seja, sobrevivem uma vida inteira sem sonhar, agarrados à miséria a que a preguiça os obriga. Admiro, particularmente, quem se assume como um sonhador, quem admite que o sonho é uma realidade na sua vida, quem se permite levantar os pés do chão e enveredar por caminhos desconhecidos. Nenhum sonho se encontra no fim de um caminho feito por muita gente; o caminho para o teu sonho está cândido, à espera das tuas primeiras pegadas, por isso uma coisa te garanto, quanto mais verbalizares esta palavra, mais a tua mente se desmente e se entrega, mais o corpo acredita, mais forma ele ganha e mais sentido encontrarás nesta experiência. O sonho comanda, mesmo, a vida.

(Gustavo Santos, em seu A Força das Palavras)

Viver é…

Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. Ela exige reflexão. E exige soluções.
A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.

Joaquim Pessoa, em “Ano Comum”

Sem dúvida…



Página 20 de 117« Primeira...10...1819202122...304050...Última »