Simbiose Cósmica Universal

Lendo o psiquiatra e escritor Gaiarsa,  Amores Perfeitos, de 1994.

Antes, já havia devorado Tratado Geral Sobre a Fofoca, de 1978.

Eis uma visão desse precursor ávido por entender a linguagem não verbal:

“Este é o meu sonho: que a humanidade se faça uma gigantesca simbiose amorosa. Muitos fatos apresentados nos permitem crer que a natureza, digamos que seja ela, vem tentando fazer exatamente isso. A simbiose é a forma mais inteligente de desenvolvimento vivo. Aliás, indo direto ao fim, cada ecossistema é um grande conjunto de seres vivos, todos necessários uns aos outros – uma simbiose.

Aliás e enfim, toda a vida na terra é uma simbiose. Altere-se uma espécie e todo o sistema mudará. Todos os seres vivos são necessários uns aos outros e todos eles, ou todos nós juntos, controlam a atmosfera, para que ela continue constante nas suas características e favorável à comunicação dos fenômenos vivos.

É a hipótese de Gaia: os seres vivos começaram adaptando-se ao mundo inanimado do modo como era possível, mas hoje, sentindo-se poderosos, passaram a controlar a natureza inanimada, recriando-a para si mesmos.

Por força de uma simbiose deveras poderosa. 

Está no fim essa teoria de que a vida é uma competição eterna, sobrevivendo o mais apto, essência do evolucionismo. Envolvendo e organizando a luta aí está o grande manto amoroso da simbiose.”

 

 

 

Ideia genial: distribuição móvel de cultura

Bibliomotocarro

Ah, esses italianos sensacionais com ideias excepcionais…

Adorei essa viagem…

“Antonio De Cava é um amante de literatura e professor aposentado do sul da Itália. Reconhecendo que as crianças nas aldeias locais não têm acesso fácil a livros, ele criou o BIBLIOMOTOCARRO, uma biblioteca móvel com cerca de 700 livros.

Projetado para oferecer livros gratuitos para os jovens, o veículo é recebido com sorrisos e entusiasmo por onde passa. Quando as crianças ouvem a música do BIBLIOMOTOCARRO, elas correm para vê-lo, assim como fariam com um caminhão de sorvete.

Construído em 2003, a biblioteca móvel viaja mais de 500 km ao longo das aldeias sem remuneração, puramente por amor aos livros e uma compreensão da importância de que os jovens tem que ter acesso a eles.

Como ele disse em uma entrevista em vídeo ao Zooppa, “eu sempre pensei que as crianças devem ter a oportunidade de aprender coisas interessantes em todos os lugares, não apenas enquanto estão na escola.”

Fonte e para ver mais: http://razoesparaacreditar.com/educacao/adoravel-biblioteca-sobre-rodas-leva-livros-para-criancas-na-italia-que-nao-tem-acesso-a-leitura/

Um ainda

 

“É um castigo ainda gostar de ti. A mente diz não. O coração diz sim. E minh’alma, esgotada, me abandona.

Dotada de esperteza, na verdade ela abandona esse conflito causado por essas ordens mentais descumpridas por um emocional carente e falido. Ela abandona para não sofrer o real sofrimento da minha prisão. Escapou de correntes grossas que impedem a minha liberdade nos meus dias cada vez mais doloridos, que me causam crateras enormes. Sou renovada às avessas por buracos quando luto para não pensar, não me furtar, não me enfurecer com sua ausência.

Em intervalos cada vez mais raros de serenidade, reflito se voltarei a ter a mim sem rachaduras, sem cicatrizes. E, deles, me sobram pedidos de cura.

Preciso de um não contra o que ainda me castiga, que é viver você sem vida em mim. Um não absoluto. Um não racional curto e grosso. Preciso me reintegrar à sociedade e deixar esse quarto pequeno com um silêncio perturbador. Preciso que meu coração bobo volte a ser inteligente com as pedagogias sentimentais frustradas e aprenda as lições daquilo que até agora não foi absorvido. Preciso, na verdade, que o impossível aconteça.”

(Adriana Araf)

Saudade não significa perda

linda

Muito sensível o texto “Velha Amiga”, publicada em 2001 e inserido no livro “Melhores Crônicas Rachel de Queiroz”.

Palavras doces, delicadas, profundas e tocantes. Texto gentil vindo de um coração igualmente gentil, certamente.

Abaixo, o que transforma a gente. Para o bem, claro. Texto que desperta a alma.

Leia e melhore o seu espírito.

Adriana Araf

“Conversávamos sobre saudade. E de repente me apercebi de que não tenho saudade de nada. Isso independente de qualquer recordação de felicidade ou de tristeza, de tempo mais feliz, menos feliz. Saudade de nada. Nem da infância querida, nem sequer das borboletas azuis, Casimiro.

Nem mesmo de quem morreu. De quem morreu sinto é falta, o prejuízo da perda, a ausência. A vontade da presença, mas não no passado, e sim presença atual.

Saudade será isso? Queria tê-los aqui, agora. Voltar atrás? Acho que não, nem com eles.

A vida é uma coisa que tem de passar, uma obrigação de que é preciso dar conta. Uma dívida que se vai pagando todos os meses, todos os dias. Parece loucura lamentar o tempo em que se devia muito mais.

Queria ter palavras boas, eficientes, para explicar como é isso de não ter saudades; fazer sentir que estou exprimindo um sentimento real, a humilde, a nua verdade. Você insinua a suspeita de que talvez seja isso uma atitude.

Meu Deus, acha-me capaz de atitudes, pensa que eu me rebaixaria a isso? Pois então eu lhe digo que essa capacidade de morrer de saudades, creio que ela só afeta a quem não cresceu direito; feito uma cobra que se sentisse melhor na pele antiga, não se acomodasse nunca à pele nova. Mas nós, como é que vamos ter saudades de um trapo velho que não nos cabe mais?

Fala que saudade é sensação de perda. Pois é. E eu lhe digo que, pessoalmente, não sinto que perdi nada. Gastei, gastei tempo, emoções, corpo e alma. E gastar não é perder, é usar até consumir.

E não pense que estou a lhe sugerir tragédias. Tirando a média, não tive quinhão por demais pior que o dos outros. Houve muito pedaço duro, mas a vida é assim mesmo, a uns traz os seus golpes mais cedo e a outros mais tarde; no fim, iguala a todos.

Infância sem lágrimas, amada, protegida. Mocidade – mas a mocidade já é de si uma etapa infeliz. Coração inquieto que não sabe o que quer, ou quer demais.

Qual será, nesta vida, o jovem satisfeito? Um jovem pode nos fazer confidências de exaltação, de embriaguez; de felicidade, nunca. Mocidade é a quadra dramática por excelência, o período dos conflitos, dos ajustamentos penosos, dos desajustamentos trágicos. A idade dos suicídios, dos desenganos e, por isso mesmo, dos grandes heroísmos. É o tempo em que a gente quer ser dono do mundo – e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mesmo mundo. A idade em que se descobre a solidão irremediável de todos os viventes. Em que se pesam os valores do mundo por uma balança emocional, com medidas baralhadas; um quilo às vezes vale menos do que um grama; e por essas medida, pode-se descobrir a diferença metafísica que há entre uma arroba de chumbo e uma arroba de plumas.

Não sei mesmo como, entre as inúmeras mentiras do mundo, se consegue manter essa mentira maior de todas: a suposta felicidade dos moços. Por mim, sempre tive pena deles, da sua angústia e do seu desamparo. Enquanto esta idade a que chegamos, você e eu, é o tempo da estabilidade e das batalhas ganhas. Já pouco se exige, já pouco se espera. E mesmo quando se exige muito, só se espera o possível. Se as surpresas são poucas, poucos também os desenganos.

A gente vai se aferrando a hábitos, a pessoas e objetos. Ai, um um dos piores tormentos dos jovens é justamente o desapego das coisas, essa instabilidade do querer, a sede do que é novo, o tédio do possuído.

E depois há o capítulo da morte, sempre presente em todas as idades. Com a diferença de que a morte é a amante dos moços e a companheira dos velhos.

Para os jovens ela é abismo e paixão. Para nós, foi se tornando pouco a pouco uma velha amiga, a se anunciar devagarinho: o cabelo branco, a preguiça, a ruga no rosto, a vista fraca, os achaques. Velha amiga que vem de viagem e de cada porto nos manda um postal, para indicar que já embarcou.”

Fonte: Portal Raízes

 

Passagens de alcance

 

Lendo atentamente as 365 páginas do livro Responsabilidade e Julgamento, obra de Hannah Arendt, que reúne vasto conteúdo sobre o pensar, o querer e o julgar. O capítulo, O vigário: culpa pelo silêncio, me fez refletir sobre o peso do não e a receptividade ao sim, sendo a abstenção (ou ausência de posição) nefasta, a depender dos assuntos de alçada submetidos a crivo. Entre o sim e o não, rejeitemos a condição de mornos.

Bastante aplicável também, para o entendimento dos acontecidos políticos (e o que estão por vir), o encontrado no capítulo Tiro Pela Culatra: eu havia dito antes que o cataclismo de acontecimentos recentes era como se o tiro houvesse saído pela culatra, e usei essa expressão corriqueira porque ela indica o efeito de bumerangue, o inesperado e ruinoso tiro das más ações que se volta contra o mal-feitor (…).

Ainda, bela frase para fechar um capítulo “Só a verdade nos fará livre”.  Ainda que seja terrível e dura de aceitar.

(Adriana Araf)


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