Fragilidade

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Vive cada um de nós “feliz e tranquilo” em seu cantinho, em seu universo de aparências, como se nenhum dique pudesse romper, como se nenhum relâmpago medonho pudesse surgir repentinamente sobre nossas cabeças, destruindo nossa realidade terrivelmente bela, ou terrivelmente melancolica, e nos fizesse mais pobres e nos fulminasse de morte.

Certo é que o estado de encantamento, este relâmpago ou este despertar, esta vida agarrada à própria realidade não dura muito. Traz a morte em si. Dura enquanto o homem pode suportar tal estado. E depois acaba ou pela morte, ou pelo retorno ao irreal, ao sonho, ao invisível. Nesta margem estreita dos conceitos, dos sistemas, dos dogmas, das alegorias, vivemos  nove décimos de nossas vidas.

Assim vive o homem, este ser deveras pequeno, todo feliz, em ordem, tendo talvez envergonhada, escondida em suas casas, em seu andar, ou no andar de cima, ou no debaixo, ou mais além, uma consciência de seu passado, de sua origem, de seus pressentimentos, que são, afinal, os mesmos que tiveram seus antepassados; e tem ainda, por cima de sua cabeça, uma ordem, um estado, uma lei, um direito, um exército – até que, enfim, num segundo, tudo isto se destroi e desaparece. O chão e o teto viram fogo e cinzas; a Ordem e o Direito tornam-se ruínas  e caos; a paz e o bem-estar convertem-se em ameaças de morte; faz-se tudo em chamas e é consumido, e nada lhe resta senão a realidade monstruosa e medonha.Podemos dizer que foi Deus, o terrível; ou o Invencível; ou o Incompreensível e Tremendo. Mas aqui entre nós, o nome nada explica, nem esclarece e nem conforta.

Para alguns, basta uma doença, uma desgraça ocorrida comum parente mais próximo, ou uma momentânea provação, ou o despertar de um pesadelo, ou de uma noite insone, para que se veja diante do inexorável.

E, então, é posta em questão, por algum tempo, toda ordem, todo bem-estar, toda segurança que usufruia.

Toda fé.

Toda ciência.

(Hernann Hesse, Para ler e guardar)

Não te rendas…

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Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso:
continuar a viagem,
perseguir sonhos,
destravar os tempos,
arrumar os escombros,
e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,
porque o quiseste e eu te amo,
porque existe o vinho e existe o amor,
porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
tirar os ferrolhos,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto em meio ao nada,
baixar a guarda e estender as mãos,
abrir as asas
e tentar de novo
celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:
mesmo que o frio queime,
mesmo que o medo morda,
mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo na tua alma,
ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo início,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, por eu te amo.

(Mário Benedetti)

Guia para viajar pelas florestas dos sentidos

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O que é o caminho? anúncio de partida escrito em folhas que o pó desenhou.

O que é a árvore? lagoa verde cujas ondas são o vento.

O que é o vento?  alma que não quer habitar o corpo.

O que é a morte? carro que leva do útero da mulher ao útero da terra.

O que é a lágrima? guerra perdida pelo corpo.

O que é o desespero? descrição da vida na língua da morte.

O que é o horizonte? espaço que se move sem parar.

O que é a decepção? espinho que sangra nas lembranças.

O que é a coincidência? fruto na árvore do vento caindo entre as mãos sem se saber.

O que é o não sentido? doença que mais se propaga.

O que é o medo? paralisia que avança.

O que é a memória? casa habitada só por coisas ausentes.

O que é a poesia? navios que navegam, sem portos.

O que é a metáfora? asa aliviando no peito das palavras.

O que é o fracasso? musgo boiando no lago da vida.

O que é a surpresa? pássaro que escapou da gaiola da realidade.

O que é a história? cego a tocar tambor.

O que é a mocidade? chegada barulhenta.

O que é a velhice? partida silenciosa.

O que é a sorte? dado na mão do tempo.

O que é a linha reta? soma de linhas tortas invisíveis.

O que é o umbigo? meio caminho entre dois paraísos.

O que é o tempo? veste que usamos sem poder tirar.

O que é a melancolia? anoitecer no espaço do corpo.

O que é o sentido? início do não sentido e seu fim.

(POEMAS, de ADONIS,  Ali Ahmad Said)

Noturno

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O aço dos meus olhos
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio
Mas deixaram suas marcas
Se hoje sou deserto
É que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força
E a ventania vem mais forte.

Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou
Há muito me deixou

Ai, Coração alado
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
no fogo ingênuo da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança
Nessa estrada
Só quem pode me seguir sou eu
Sou eu, sou eu, sou eu

(Graco / Caio Sílvio)

Passagens literárias

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“Não há nada como refazer a realidade. (…) O jeito é enfrentar. Segurar as pontas e enfrentar. E não importa sobre o quê.

É claro que, tal como ocorre quando qualquer pessoa morre, embora muitos sofram, outros permanecem indiferentes, ou se sentem aliviados, ou então, por motivos bons ou maus, ficam na verdade satisfeitos.

É justamente o que há de normal nos funerais o que os torna mais dolorosos: mais um registro da realidade da morte que avassala tudo.É porque a intensidade mais perturbadora da vida é a morte. É porque a morte é injusta. Para quem provou a vida, a morte não parece nem sequer natural.

(No quarto, ela sentou-se a seu lado e segurou-lhe a mão, pensando: quando a gente é jovem, é o exterior do corpo que é importante, a aparência externa. Quando envelhecemos, é o que está dentro que importa, e as pessoas não ligam mais para a aparência)

(in Homem Comum, de Philip Roth)


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