101 Dicas de Bem Viver

adri praia

  1. Se todos vão numa direção, vá em outra por experiência. Se não deu certo, retorna. Caminhos percorridos sempre irão acrescentar algo.
  2. Leia um livro toda semana. Não apenas ficção, mas também não-ficção, autoajuda, fantasia, filosofia, metafísica, psicologia, etc…
  3. Abra sua mente para novos gêneros de livros a cada 2 meses e força a ler os melhores no gênero de descoberta. Se você gostar do livro, pegue outro parecido e leia.
  4. Veja um filme aclamado pela crítica toda semana. Não apenas filmes de Hollywood, mas também francês, germano, indiano, australiano, britânico, japonês, chinês, coreano e etc…
  5. Abra sua mente para novos gêneros de filmes e para filmes de países diferentes a cada 2 meses.
  6. Faça treinos de resistência ao menos 4 vezes por semana.
  7. Tente parar de comer qualquer comida mercantil.
  8. Olhe os ingredientes antes de comer alguma coisa (Por exemplo, Nutella possui quase 60–70% de açúcar, geleia algo entorno de 48%, e assim por diante). Esteja informado acerca do que você coloca dentro de seu corpo.
  9. Não ouça pessoas que dizem “é momento para se comer a vontade” quando você está na adolescência ou nos vinte anos. Você pode comer qualquer coisa a qualquer idade se você construir um estilo de vida entorno de exercícios físicos e alimentação saudável e nutritiva.
  10. Se alguém diz a você que não pode fazer alguma coisa, e você quer fazê-lo (se você acha que pode), vá em frente e faça. Vá em frente e tenha todo o prazer em provar que estão errados sobre você (não há prazer mais doce na terra). E, se der errado, coloque no seu currículo de experiências.
  11. Durma pelado.
  12. Abrace seu  (sua) amado(a).
  13. Abrace seu corpo como um todo. Não fatie em diferentes partes e as veja com orgulho, enquanto vê outras com vergonha.
  14. Abrace sua vida como um todo. Não a fatie em pedaços (presente, passado e futuro). Pare de abordar sua vida em partes, vendo algumas com orgulho e outras com vergonha (mesmo que sinta vergonha dela toda).
  15. Pare de moldar seu corpo ao padrão de beleza estabelecido pelas pessoas ao seu redor. Estabeleça seu próprio modelo. Engorde se quiser. Entre em forma se quiser. Fique trincado se quiser. Fique musculoso se quiser. Faça agachamentos regularmente e fique com uma bunda enorme se é o que você quer. Tenha certeza de que está pronto para encarar as consequências do que quer que você tenha escolhido perseguir após decidir o que realmente quer (engordar não vem com muitas consequências boas). Em suma, pare de viver sob os padrões que outras pessoas te estabeleceram. Comece a estabelecer seus próprios padrões.
  16. Não respeite alguém só porque é mais velho que você. Pessoas estúpidas também envelhecem. Respeite os seres humanos em geral, independentemente da idade — por simples cortesia. Qualquer coisa disso deve vir da humildade, empatia e aceitação.
  17. Se você é casado(a) (ou se você está em um relacionamento), não importa onde você sinta apetite, desde que você vá para casa comer.
  18. Algumas vezes você não pode ter tudo. Lide com isso ou rompa com isso.
  19. Algumas vezes você não pode ter tudo. Faça o que você faz melhor ou veja a si mesmo falhando ao tentar fazer tudo de uma vez.
  20. Algumas vezes — não ter tudo, não fazer tudo de uma vez — há situações em que você não é o único envolvido — principalmente em relacionamentos. Se não há felicidade a dois, vá embora.
  21. Faça alguma coisa que você ama, ao menos duas horas por dia.
  22. Tenha um momento “sem tecnologia” ao menos quatro horas antes de ir para a cama. Sem celulares, sem redes sociais, sem computadores, sem TV, nada. Apenas você, provavelmente livros, ou provavelmente amigos/família/esposa/filhos e apenas converse, coma, beba e alegra-te.
  23. Beba com moderação. Preferencialmente, pare de beber.
  24. Nem pense em fumar com moderação. NUNCA fume. Não fume mesmo que um “amigo” lhe provoque a fazê-lo. É melhor “não experimentar” algumas coisas em toda sua vida.
  25. Frequente a natureza ao menos duas vezes por semana, uma hora em cada vez.
  26. Agradeça a sua comida por nutri-lo, antes de comê-la.
  27. Reserve 4 horas para um silêncio completo um dia por semana. Nestas 4 horas, vá a um espaço sereno e pacífico — em sua casa, ou algum outro lugar e sente silenciosamente — observe tudo que está acontecendo — em ambos os espaços, dentro e fora [de você].
  28. Tire muitas fotos.
  29. Veja comédia, preferencialmente meia-hora todo dia.
  30. Aprenda algum instrumento que não é tradicional, como violoncelo, clarinete, saxofone, bandolim, banjo e etc. Isso renovará seu cérebro. Ao menos uma hora de prática todo dia fará com que se sinta em paz, relaxado e empolgado para ir trabalhar no resto do dia. Ao longo dos anos, você dominará o instrumento e verá a sensação de amor-próprio crescer; verá seu cérebro esticando-se; e perceberá que você pode fazer qualquer coisa em que persista!
  31. Ensine o instrumento uma vez que o aprendeu. Passe o conhecimento adiante.
  32. Vá a um orfanato, asilo ou a um hospital infantil, quando for possível. Converse com eles. Ouça histórias. Consiga alguma ajuda a eles se você puder.
  33. Diga às pessoas que ama que você as ama.
  34. Mais importante ainda, demonstre que você as ama.
  35. Não tome nada como garantido.
  36. Se alguém não te valoriza do jeito que você sabe que merece ser valorizado, caia fora.
  37. Se você é uma opção a alguém que é prioridade a você, despriorize esse alguém.
  38. Não faça jogos com os sentimentos de alguém. Seja direto e objetivo acerca de seus sentimentos e intenções.
  39. Se você sabe que alguém te manipula, ou caia fora ou confronte.
  40. Se você sabe que alguém dá tudo que tem por você, com pouco retorno de sua parte, deixe de ser assim e vá demonstrar que você se importa e entende o que significa para a pessoa.
  41. Minimize a quantidade de tecnologia que você possui.
  42. Tenha um bom travesseiro. E colchão. E cobertor.
  43. Se você não usou alguma coisa por um ano, livre-se disso.
  44. Não compre algo se isso não é imediatamente necessário ou urgentemente necessário. Em traços simples: não compre nada por luxúria.
  45. Apadrinhe a educação de uma criança, se a sua renda puder investir no mundo.
  46. Se você é homem, barbeie-se todo dia e corte seu cabelo uma vez a cada três meses. Remeta-se ao tópico 15 se você não gosta desta dica.
  47. Se você é mulher, você sabe o que fazer
  48. Beba de água suficiente todo dia.
  49. Mate sua televisão.
  50. Cozinhe com alho.
  51. Anote suas bênçãos e as coisas pelas quais é grato todo dia antes de começar o dia.
  52. Prefira as qualidade em vez dos defeitos — em pessoas, situações, coisas. (Com os cães você não tem o que preferir).
  53. Adote um cachorro (ou um gato se você prefere gatos). Ou uma planta. Seres vivos diferentes de você.
  54. Caia na estrada ao menos uma vez a cada 6 meses. Acumule pontos por visitar lugares onde você, nem mesmo remotamente, já esteve em sua vida.
  55. Engula seu orgulho e peça ajuda, se você não pode fazer alguma coisa sozinho.
  56. Engula seu orgulho e deixe que as pessoas te ajudem, se se oferecerem para tanto.
  57. Leia poesia. Você aprenderá a ver beleza nas coisas mais simples.
  58. Não leve a si mesmo tão a sério. Também não pegue tão leve consigo. Mantenha um equilíbrio entre a auto-ironia e a autoafirmação.
  59. Bote uma música maluca e dance como se fosse seu último dia de vida. Sinta-se chapado pela música e pela dança.
  60. Ligue o Karaokê e solte a voz. Cante alto.
  61. Chore. Chore alto. Ponhe para fora.
  62. Ria. Ria alto. Ria o mais que puder. Ria o quanto você quiser.
  63. Cozinhe para você ao menos duas vezes por mês. Seja lá o que quiser. Pegue uma receita, planeje de antemão, consiga os mantimentos necessários no dia escolhido, prepare-os, acorde cedo e comece a cozinhá-los (Com um bom jazz ou uma música clássica ainda por cima!).
  64. Fique longe do “normal”. Em tempos difíceis, o “anormal” vai assim sendo diluído mais fácil. Não será um baque, quero dizer.
  65. Exclua os babacas de sua vida — mesmo que seja alguém da família.
  66. Beba uma dose de vinho-tinto depois do jantar (50ml).
  67. Ligue para seus pais ao menos uma vez por semana.
  68. Visite-os ao menos uma vez por mês. Se forem falecidos, ore por eles todos os dias.
  69. Desligue-se e desconecte-se da sociedade ao menos por uma semana a cada 6 meses (embora uma vez a cada dois meses seria excelente). Como? Provavelmente ir acampar sem tecnologia ou dispositivos eletrônicos com você. Coma, durma, saia, faça amor, leia histórias, leia livros (sem Kindle, livros de verdade!), conte histórias sobre alienígenas, fale sobre o universo interestelar, fale sobre qualquer coisa, mime, saia outra vez, faça alguma coisa impulsiva, explore novos caminhos ou apenas conheça-te a ti mesmo (se você é solitário).
  70. Não seja um capacho.
  71. Observe mais do que exponha.
  72. Dê a você antes de dar aos outros (sobretudo amor).
  73. Quando você der alguma coisa aos outros, não fique lembrando da coisa. Ela não mais te pertence.
  74. Não empreste dinheiro, especialmente a amigos. Se você der dinheiro a amigos, considere isso um presente que está a dar-lhe. Caso contrário, você perderá seu amigo aos poucos.
  75. Fale algumas coisas boas sobre alguém de quem está falando. Filtre as coisas ruins.
  76. Tome apenas as coisas boas quando estiverem falando de outra pessoa. Filtre as coisas ruins.
  77. Pare de se queixar junto aos “queixosos” — aqueles que sempre têm alguma coisa para se queixar.
  78. Pare de postar status indiretamente a alguém no WhastApp ou Facebook. Se você tem coragem, diga-os diretamente. Caso contrário, distancie-se. Não seja estúpido.
  79. Pare de discutir seus problemas. Muitas pessoas estão contentes que você tem problemas. Outros nem se importam. Não faz sentido discuti-los. Ou lida com isso ou apenas pare de se preocupar com eles.
  80. Chore o quanto quiser. Mas certifique-se de que é a última vez que chora pelo que está chorando. Com exceção da saudade, chorar pelo que de ruim te fizeram é irrigar a dor com sua energia.
  81. Ria o quanto quiser. Mas certifique-se de que não é a última vez que você ri sobre o que está rindo.
  82. Uma vez por semana, não olhe o relógio um dia inteiro. Apenas faça o que você quer fazer.
  83. Deixe o país se você não está feliz nele.
  84. Pare de ver coisas onde não tem. A desconfiança exagerada te deixará sozinho.
  85. Deixe as crianças brincarem. Deixe seus filhos serem crianças. Dê a eles uma grande tela para eles pintarem — ambos, literal e metaforicamente.
  86. Ouça a diferentes gêneros de música todo mês. Abra sua mente para diferentes gêneros e force a si mesmo a ouvi-los por um mês até querer explorar outros. Se você não gostou após um mês, pare. Se você amou após um mês ou mesmo antes disso, explore mais do gênero.
  87. Comece um diário — sobre o cotidiano e seus sonhos noturnos. Mantenha um diário separado para escrever sobre os sonhos que tem enquanto dorme, escreva-os o mais cedo que puder ao acordar, o mais que lembrar. Lentamente, você desenvolverá lucidez e poderá explorar sonhos lúcidos.
  88. Fale com pessoas que não são como você — pessoas com uma mentalidade oposta, um estilo de vida oposto e etc. Aprenda com o diferente.
  89. Ame ele(a) como se ele(a) pudesse ser tirado(a) de você a qualquer momento.
  90. Trate ele(a) como se ele(a) fosse ficar com você até o fim do seu universo.
  91. Coloque 50% de seu rendimento fora de alcance antes que possa gastá-lo em qualquer coisa.
  92. Uma vez por mês, satisfaça-se em atividades do tipo “faça você mesmo”, algum tipo de projeto, e envolva toda sua família — seus filhos, sua esposa, você mesmo, seus pais e qualquer um de sua família que esteja em sua casa no dia. Alegra-te, coma bem, jante bem, beba vinho, cante Karaokê e conte histórias ao final do dia, como a marca de celebração do projeto realizado.
  93. Vá e brinque com seus filhos. Se você é uma criança, apenas vá brincar lá fora.
  94. Encharque-se de suor, aproveite o verão, assim que for possível. Com um copo de chá-quente e um livro no parapeito da janela, aproveite o inverno!
  95. Esteja presente no momento. Não deseje por alguma coisa futura agora — você irá querer alguma coisa lá no futuro, quando você tiver o que você quer para o futuro. Então, comece a pratica de saborear o momento, enquanto trabalha por aquilo que você quer. Você será sempre mais feliz.
  96. Seja grato por aquilo que você tem. Muitas pessoas não tem o que você tem.
  97. Seja grato também por aquilo que você não tem. Muitas pessoas sofrem por ter o que você não tem — direta ou indiretamente.
  98. “Gaste” tempo e não dinheiro com seus amores.
  99. E, se tiver dinheiro, invista neles.
  100. Sempre dê o melhor de si em qualquer coisa que faz.
  101. Sempre faça mais do que pretende. Seu papel é maior do que você pensa.

Tempo de espera

(…) “Uma das frases usadas na tentativa de instilar um pouco de resistência paciente na mente dos impetuosos é aquela que diz que ROMA NÃO FOI CONSTRUÍDA NUM DIA. Ela pretende chamar a nossa atenção para um exemplo excepcional de realização grandiosa e lenta. De acordo com a tradição, a cidade precisou de quase nove séculos inteiros para evoluir do povoado original de cabanas de barro A condição de metrópole mais grandiosa e de maior poder sob a dinastia Antonina, principalmente no reinado do filósofo estoico Marco Aurélio, imperador de 161 a 180 d.C. Pelo caminho, houve muitos reveses e épocas de imensa dificuldade; a cidade foi saqueada, sitiada e queimada; houve guerras civis, revoltas e alguns líderes terríveis. Mesmo assim, sob uma superfície de muita agitação, pode-se traçar com clareza um longo arco de desenvolvimento. Esse arco não podia ser visto em qualquer dado momento da construção da cidade, mas é fácil reconhecê-lo em retrospecto. Ao invocar esse famoso exemplo, tentamos nos obrigar a aceitar uma verdade que, em termos abstratos, parece absolutamente óbvia, mas que, de fato, dificilmente, conseguimos apreciar nos momentos importantes em que mais precisamos dela. TEMOS DE VIVER DIA A DIA. Porém muitos dos projetos que valem à pena levam anos. Ficamos frustrados quando o progresso que fizemos nos parece tão pequeno. O ritmo aparentemente minúsculo do progresso ofende nossa necessidade de rapidez e coesão narrativa; ansiamos por sentir que estamos chegando a algum lugar; ansiamos por ver resultados concretos.

Aquela frase não é um mero chamado à paciência, não diz apenas “Algumas coisas levaram muito tempo para ficarem prontas. Do que você está reclamando.” Ela é um lembrete daquilo que está na base da paciência, ou seja, a compreensão de como determinados processos funcionam de verdade. A frase ressalta uma grande fonte de inquietação: o fato de não termos um entendimento adequado de como certas coisas vão demorar e, portanto, esperarmos que se realizem mais depressa e de forma mais simples do que seria razoável. Uma das ideias mais desanimadoras de quem está aprendendo piano ou alemão é o progresso insuportavelmente lento. Temos em mente a imagem de uma apreensão rápida que, na verdade, não é realista. Não baseamos nossa expectativa na compreensão adequada do processo necessário para realmente nos tornamos bons nas coisas (que, como a construção de Roma, segue um indireto com muitos desvios e aparentes obstáculos).

Lembrar que Roma levou séculos – e muito estresse e frustração – contrabalança o infeliz efeito colateral de um certo tipo de grandeza empresarial e criativa que esconde do usuário o tipo de trabalho necessário para criar os bens e serviços que ele está apreciando. As empresas educadamente escondem de nós que a pessoa que fundou a distribuidora de água mineral cujo produto estamos casualmente bebericando agora passou muitas noites de inquietação, deu ataques, esteve ausente da vida dos filhos, chorou e, certa vez, vomitou depois de uma reunião particularmente frustrante com um fornecedor de plástico. Como é muito nais provável encontrarmos o produto final depois que todas as dificuldades já foram superadas, é facílimo criar uma imagem desnecessariamente otimizada, simplificada e agradável de como tudo aconteceu.

A impaciência não é a insatisfação  com o fato de as coisas levarem muito tempo para acontecer, mas a sensação de que elas estão levando muito mais tempo do que deveriam. Às vezes até pode ser isso mesmo. Mas, com frequência, o problema não está tanto no tempo que as “coisas” levam, mas em nossa suposição de quanto tempo deveriam na verdade levar. E criarmos esse cronograma apertado sobretudo por ignorância. É por não compreendermos direito a natureza da tarefa que não calculamos o tempo que deveria levar”.

(trecho do Livro Calma, The School of Life)

A solidão amiga

“A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja é não estar em solidão…

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão… A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis”.

A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?” Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.” Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga… Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim: “Por muito tempo achei que a ausência é falta./ E lastimava, ignorante, a falta./ Hoje não a lastimo./ Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim./ E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,/ que rio e danço e invento exclamações alegres,/ porque a ausência, essa ausência assimilada,/ ninguém a rouba mais de mim.!”

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.” Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia… Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

“Ó solidão! Solidão, meu lar!… Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade!
Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes. Ali as palavras e os tempos/poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.”

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (…) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (…) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.”

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte:

“As obras de arte são de uma solidão infinita.” É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

“…Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos… Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília…”

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão.

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos… Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.

(Rubem Alves)

* Para conhecer a obra A Chama de Uma Vela, de Gaston Bachelard, acessar https://www.cidadefutura.com.br/wp-content/uploads/BACHELARD-G.-A-Chama-de-uma-Vela.pdf

Rubem Fonseca se foi. Mas ficou.

 

“Quando a dor é muito grande, o sofrimento é silencioso.”

“Eternidade é o tempo completo. Esse tempo do qual a gente diz “valeu a pena“.

“O homem é um animal solitário, um animal infeliz, só a morte pode consertar a gente.”

“Um ladrão é considerado um pouco mais perigoso do que um artista.”

“Numa separação, aquele que não ama é o que diz as coisas carinhosas.”

“O pecado é mais saudável e alegre do que a virtude. Aqueles que trocam o vício pela beatice tornam-se velhos feios e desagradáveis.”

“Tinha muitas ideias na cabeça, e isso me atrapalhava. Os melhores conferencistas são aqueles de uma única ideia. Os melhores professores, os que sabem pouco.”

“Deixo as mulheres bonitas para os homens sem criatividade.”

“A coerência é uma característica vegetal que eu felizmente não possuo.”

“As coisas naturais têm que ser conhecidas antes de serem amadas. As coisas sobrenaturais só chegam a ser conhecidas por aqueles que as amam.”

“Escrever é tomar decisões constantemente.”

“Rir é bom, mas pode foder a vida de uma pessoa.”

Rubem Fonseca

O universo das leituras

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MARIO VARGAS LLOSA

Lembro com exatidão as dez quadras que existiam entre a casa dos Llosa, na rua Ladislao Cabrera, e o colégio La Salle. Eu tinha cinco anos e, sem dúvida, estava muito nervoso. Naquele dia, o meu primeiro no colégio, eu as percorri com minha mãe, que até me acompanhou à classe e me deixou aos cuidados do irmão Justiniano. Ele me apresentou aos que seriam meus amigos cochabambinos a partir de então: Artero, Román, Gumucio, Ballivián. O mais querido deles, Mario Zapata, o filho do fotógrafo que havia documentado todos os casamentos e primeiras comunhões da cidade, seria morto com uma facada, anos depois, em um bar de Cala-Cala. Como era o garoto mais pacífico do mundo, sempre pensei que sua horrível morte foi por defender a honra de uma jovem.

O Irmão Justiniano era um anjo na terra. Tinha cabelos brancos e olhos doces e afetuosos. Dávamos as mãos e com ele cantávamos e dançávamos rodas repetindo o abecedário e as conjugações e assim, brincando, seis meses depois sabíamos ler. O carteiro entregava a cada semana quatro revistas na casa, três argentinas e uma chilena: Leoplán, para o avô Pedro, Para Ti, lida pela avozinha Carmen, Mamaé, minha mãe e a tia Lala, e, para mim, Billiken e El Peneca. Esperava essas revistas como um maná do céu e as lia do começo ao fim, incluindo as propagandas.

Minha mãe tinha um professor de violão e era uma leitora empedernida. Ela me emprestou O Sheik e O Filho do Sheik, mas me proibiu de ler Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, de Pablo Neruda, um livro azul de letras amarelas que escondia em sua cabeceira e relia de noite: entre bocejos, eu a ouvia. Claro que eu o li, às escondidas, e lá havia versos que, eu tinha certeza (“Meu corpo de lavrador selvagem te enfraquecia / e faz saltar o filho do fundo da terra”), eram pecado mortal.

Aprender a ler é o que de mais importante me aconteceu na vida e, por isso, sempre lembro com gratidão do Irmão Justiniano e das cantigas de roda entre as carteiras, cantando e dançando enquanto decorávamos as conjugações. Pela leitura, esse mundo pequenino de Cochabamba se tornou o universo. Graças aos sinais que transformava em palavras e ideias, viajava pelo planeta e até podia voltar no tempo e me transformar em mosqueteiro, cruzado, explorador e viajar pelo espaço até o futuro em naves silenciosas. Minha mãe disse que a primeira manifestação do que, com os anos, seria uma vocação literária, foi que, quando eu não gostava dos finais dos contos e romances que lia, modificava-os com minha letra ruim da época. Eu não me lembro, mas sim das horas que passava lendo todos os dias, após voltar do La Salle e tomar meu copo de leite gelado com canela, meu alimento preferido. O avozinho Pedro brincava comigo: “Para o poeta a comida é prosa”. Mas eu ainda não escrevia versos em Cochabamba; isso viria depois, em Piura.

Agora que, por culpa do coronavírus e do isolamento forçado a que os madrilenhos estão submetidos, leio do amanhecer ao anoitecer, dez horas diárias em um estado de felicidade absoluta (moderada pelo medo à praga), aqueles dias cochabambinos voltam à minha memória com os fantasmas desvanecidos das primeiras leituras que o subconsciente me devolve: a orgulhosa Diana Mayo caía rendida nos braços de seu sequestrador Ahmed ben Hassan nos desertos da Argélia; o espadachim que nasceu em uma cela e, como os gatos, enxergava no escuro; o Judeu Errante e sua peregrinação pelo mundo. As crianças da época —pelo menos em Cochabamba— não liam quadrinhos e sim livros, e sem dúvida por isso jamais me viciei em Pato Donald, Mickey Mouse e Popeye, o marinheiro musculoso. Mas sim em Tarzan e Jane, com quem voei de árvore em árvore, pelas selvas da África.

Na biblioteca com teias de aranhas da Universidade de San Marcos li minha primeira obra-prima: Tirante o Branco, na edição de Martín de Riquer de 1948. Antes ainda, quando cadete do Leoncio Prado, devorei a série dos mosqueteiros de Alexandre Dumas, e sonhava com d’Artagnan todas as noites.

Nada me deu tanto prazer e felicidade como os bons livros; nada me ajudou tanto como eles a passar pelos momentos difíceis. Sem a literatura teria me suicidado nesse período atroz em que soube que meu pai estava vivo, quando me levou para morar com ele e me fez descobrir a solidão e o medo. William Faulkner mudou minha vida em plena adolescência; eu o li com lápis e papel para identificar suas mudanças de narrador, os saltos temporais, os redemoinhos dessa prosa que misturava personagens, tempos e lugares e aparecia, de repente, no romance um reordenamento da história ainda melhor do que o cronológico.

Para ler Sartre, Camus, Merleau-Ponty, Simone de Beauvoir e demais colaboradores da Les Temps Modernes, aprendi francês, e inglês para entender Hemingway, Dos Passos, Orwell e Virginia Woolf, e decifrar o Ulisses de Joyce (consegui na terceira vez). Em uma cabaninha de Perros-Guirec, na Bretanha, no verão de 1962 li o tomo de La Pléiade dedicado a Tolstói e desde então Guerra e Paz me parece o auge do romance, com Dom Quixote e Moby Dick. Entre os do século XX, nada supera no meu entender A Condição Humana, de Malraux, com exceção de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Em Paris, no primeiro dia em que cheguei, em agosto de 1959, descobri Flaubert e passei a noite inteira, no Wetter Hotel, lendo Madame Bovary. Foi para mim a mais frutífera das descobertas: graças a Flaubert, soube o escritor que queria ser e o que não queria ser.

As boas leituras não produzem somente felicidade; ensinam a falar bem, a pensar com audácia, a fantasiar, e criam cidadãos críticos, desconfiados das mentiras oficiais dessa arte suprema do mentir que é a política. A vida que não vivemos podemos sonhá-la, ler os bons livros é outra maneira de viver, mais livre, mais bela, mais autêntica. Essa vida alternativa tem, além disso, a sorte de estar fora do alcance das pragas demoníacas que sempre aterrorizaram os seres humanos porque viam nelas os diabos, que, ao contrário dos inimigos de carne e osso, eram difíceis de derrotar.

Um bom leitor é o cidadão ideal de uma sociedade democrática: nunca se conforma com aquilo que tem, sempre quer mais e coisas diferentes das que lhe oferecem. Sem essas insubmissões o progresso verdadeiro seria impossível, aquele que, além de enriquecer a vida material, aumenta a liberdade e o leque de escolhas para ajustar a própria vida a nossos sonhos, desejos e ilusões. Karl Popper tinha razão: nunca estivemos melhor do que agora (nos países livres, entende-se).

O coronavírus ressuscitou a barbárie no que acreditávamos ser a civilização e a modernidade. Vimos coisas horríveis em Madri, como nos asilos: idosos abandonados ao que parece por cuidadores que não tinham máscaras, remédios e qualquer ajuda. Os mortos convivendo com os vivos, dormindo nas mesmas camas. O horror sempre supera o horror, não importa o tempo histórico. Ainda assim, com toda a ruína econômica e social que essa inesperada praga trará ao país, se, após sobreviver a ela, existir na Espanha um milhão a mais de espanhóis, ou pelo menos cem mil, atraídos à boa leitura graças à quarentena forçada, os demônios da peste terão feito um bom trabalho.

fonte: Jornal El País https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-04-05/o-irmao-justiniano.html?event_log=oklogin


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