Feliz Páscoa! Renove-se…

O intragável. O extraordinário.

Intragável é estar parado. Não mudar. Aguentar. Sobreviver. Permanecer. Mesmo que seja pouco, mesmo que seja insuficiente. Manter tudo como está apenas para não correr o risco de ficar pior.

Intragável é não perdoar. Não liberar. E só criticar, só atacar. E não criar, não refazer. não imaginar.

Intragável é não acreditar.

Intragável é o que não é maravilhoso, o que não é delicioso, o que não é fantástico, monumental, abençoado, miraculoso, espantoso.

Intragável é acordar para o dia e recusar o dia. a não querer o dia. a não amar o dia, e não pensar nas mil e uma maneiras de torná-lo inesquecível. Deixar estar. Não mexer. Não querer a ferida que se chega à cura. Ser cauteloso, prevenido.

Intragável é o que não é exagerado, o que não é desproporcional, o que não parece incomportável. Se não parece incomportável é insuportável. Não quero. Não admito. Não me admito.

Intragável é repetir. Hoje como uma réplica de ontem e como réplica do amanhã. As mesmas coisas, as mesmas palavras, os mesmos atos, os mesmos movimentos. Sempre igual. Sempre o mesmo.

intragável é continuar por continuar, andar por andar, viver por viver.

Intragável é o normal, o regular. O que nunca matou ninguém, mas também nunca mudou a vida de ninguém. O que não mexe nas entranhas. O texto que não se resolve, a decisão que não transforma, o beijo que não arrepia, o sexo que não faz gemer e saltar.

Intragável é não estar apaixonado por uma mulher, por um homem, por um gato, por um cão, por um sonho, por um trabalho, por uma casa, por uma pele, por um sabor, por um sonho, por um desejo, por um caminho, por um pecado. Apaixonado. Como um louco. Apaixonado. Inconsequentemente, desvairadamente. Sem parar. Apaixonado. Com toda as veias à procura de uma paixão, como todo o corpo à procura do prazer.

Intragável é o que não é extraordinário. E as coisas extraordinárias não exigem atos extraordinários. As coisas extraordinárias só pedem momentos fáceis. Tão ordinários como aconchegar um cobertor, partilhar uma sobremesa, dar um mergulho no mar, roubar laranjas da árvore do vizinho, passar a tarde a contar anedotas, ouvir as histórias dos pais, ir ao parque com os filhos, partilhar a mesa com os amigos. As coisas extraordinárias não exigem nada de extraordinário. E é precisamente por isso que são extraordinárias, como pessoas extraordinárias. Ah, as pessoas extraordinárias. Sou viciado em pessoas extraordinárias. Nas que conseguem feitos incríveis. Como fazem-me feliz, por exemplo.

Intragável é replicar, é gerundio. Vamos andando. O intragável é vai-se aguentando. Ir vivendo é o mesmo que ir morrendo.

Intragável é o normal. Eu exijo o extraordinário. E todos os que eu amo são extraordinários. Eu exijo o extraordinário. Sou feliz, meu Deus. Tão feliz. Mesmo quando dói, quando choro, mesmo quando custa, mesmo quando parece tão pouco isso tudo o que eu sou, isso tudo o que eu vivo, isso tudo o que eu preciso. Sou tão feliz. É tão extraordinário sentir-se assim, querer assim, existir assim. Até o final das vísceras, até o fundo dos ossos.

Intragável é não sofrer, não custar.

Intragável é o que não é demais. É só o que é demais é um erro.

Intragável é não errar, disso estou certo.

Mas o mais intragável é não amar.

(Pedro Chagas Freitas, em seu sensível Prometo Falhar)

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces ? – me perguntarão. –
Por não Ter palavras, por não ter imagem.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras ? Tudo.
Que desejas ? Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação.
Talvez eu morra antes do horizonte.
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão !
Estandarte triste de uma estranha guerra … )
Quero solidão.

(Cecília Meireles)

Simples assim…

“Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
é livre; quem não tem, e não deseja, é igual aos deuses”

(Ricardo Reis)

Saudade…

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“Saudade é uma revolta silenciosa contra uma ausência barulhenta. É marca de batom num copo solitário de um bar qualquer. É lágrima preta escorrida de cílios borrados. É perfume misturado com o cheiro da poeira da estrada de pedra que foi preciso seguir sozinho. É um olhar desobediente e constante para trás misturado a tropeços doloridos de ter que seguir em frente. É o suspiro mais profundo que se pode ter de quem não se pode ter. É o vermelho da alma num corpo sem cor. É sal exagerado sobre as minhas feridas como um ato de conserva para que a distância não me devore.”

(Adriana Araf)

 

 

 


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