2017: seja bem-vindo

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“E eis que vai embora 2016: cheio de ocorrências intermináveis, fogo & fogo, perdas, transparências forçadas, fome de dignidade espalhada por todos os cantos, que nos gerou indagações sucessivas sobre o presente e um olhar lacunoso sobre a falta de futuro.

Já te sentimos aqui 2017, num verão iluminado por um sol quente, em nuvens azuis que nos servem de teto,  pelos vestidos coloridos das mulheres. Janelas abertas, vamos compor uma nova paisagem, imbuídos pela capacidade de metamorfosearmos nossos anseios e desejos. Riscar do papel o que não deu e colocar vida nas novas promessas.”

(Adriana Araf)

Pai Nosso de Ano Novo

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Pai Nosso, soberano, incansável e amoroso, que estás no céu

Santificado seja seu santo nome sobre a terra que nos abriga

Venha a nós o vosso reino iluminado para que tenhamos um ano revigorante, salutar, cordial, movido pelas melhores e pelas mais bonitas emoções

Seja feita a sua vontade de nos assegurar o melhor, como todo bom pai e toda divina mãe deseja

Assim, nesse lugar esplendoroso criado pelas suas sábias mãos; e acima de nós, o céu, local para onde olhamos em busca de esperança e renovação

Que o pão seja nosso, pois não há nenhuma dignidade na fome

Que o pão seja simbolizado por trabalho e força para produzir e inovar

Que perdoemos a nós e aos outros e saiamos do ano que finda com vontade de novo respiros

E não nos deixe momento algum, em tempo nenhum, pois embora a própria vida o invoque, que a fé que sintamos seja o suficiente para extinguir dúvidas e dores para colocar no lugar confiança e amores.

Amém para 2016.

(Adriana Araf)

 

Poema de Natal

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Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes, in ‘Antologia Poética’

Liberdade

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Nos meus cadernos de escola
Na minha mesa e nas árvores
Na areia na neve
Eu escrevo o teu nome
Em todas as páginas lidas
Em todas as páginas brancas
Pedra sangue papel ou cinza
Eu escrevo o teu nome
Sobre as imagens douradas
Sobre as armas dos guerreiros
Sobre a coroa dos reis
Eu escrevo o teu nome
Na selva e o deserto
Sobre os ninhos nas giestas
Sobre o eco da minha infância
Eu escrevo o teu nome
Sobre as maravilhas das noites
Sobre o pão branco das jornadas
Sobre as temporadas noivas
Eu escrevo o teu nome
Em todos os meus trapos d ‘ Azur
Sobre a lagoa sol bolorento
Sobre o lago da lua viva
Eu escrevo o teu nome
Nos Campos no horizonte
Sobre as asas dos pássaros
E no moinho das sombras
Eu escrevo o teu nome
Em cada sopro de aurora
Sobre o mar em barcos
Na montanha demente
Eu escrevo o teu nome
Na espuma das nuvens
Sobre os suores da tempestade
Sobre a chuva grossa e fade
Eu escrevo o teu nome
Sobre as formas cintilantes
Sobre os sinos das cores
Na verdade física
Eu escrevo o teu nome
Nas trilhas acordados
Nas estradas desdobradas
Sobre os lugares que ultrapassam
Eu escrevo o teu nome
Sobre a lâmpada que se acenda
Sobre a lâmpada que se apaga
Sobre as minhas casas reunidas
Eu escrevo o teu nome
No fruto cortado em dois
Do espelho e do meu quarto
No meu leito concha vazia
Eu escrevo o teu nome
No meu cão guloso e mole
Sobre as suas orelhas empinadas
Na sua pata desastrada
Eu escrevo o teu nome
No trampolim da minha porta
Sobre os objetos familiares
Sobre o fluxo do fogo abençoado
Eu escrevo o teu nome
Sobre toda a carne concedida
Na frente dos meus amigos
Em cada mão que se estende
Eu escrevo o teu nome
Na janela das surpresas
Os lábios atentas
Muito acima do silêncio
Eu escrevo o teu nome
Nos meus refúgios destruídos
Meus faróis desabaram
Nas paredes do meu tédio
Eu escrevo o teu nome
Sobre a ausência sem desejo
Sobre a solidão nua
Nos degraus da morte
Eu escrevo o teu nome
Sobre a saúde de volta
Sobre o risco desapareceu
Na esperança sem lembranças
Eu escrevo o teu nome
E pelo poder de uma palavra
Eu vou recomeçar a minha vida
Eu nasci para te conhecer
Para te nomear
Liberdade.

(Liberté, Paul Eluard, Au rendez-vous allemand, 1945, Les Editions de Minuit)

Descrição

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