Uma obra que chega

Adquiri a recente obra de uma escritora americana (e também jornalista) Hanya Yanagihara. Finalista de alguns prêmios de impacto (e premiada por outros), a obra exige fôlego para acompanhar os quatro personagens e suas vidas na cidade de Nova York: 782 páginas, diálogos ricos, superlativas e criativas ocorrências. Deixe-me ver…

Para saber mais: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/entre-premios-polemicas-uma-vida-pequena-chega-ao-brasil-19199176

Vaziez

“É uma nascente que não nasce; é um poente que não vai. É uma decisão que não se toma. É uma mistura de cores sem padrão. É um mal-estar geral. A comida pouca, o dinheiro curto, o governo desgovernado. É o permanente estado de liquidação. É o telefone que não toca. É a mancha do sofá que não saí. É a perna da estátua que não cola. É o machucado que o teu silêncio provoca. É o nosso fracasso. É um vai-e-vem mental à toa. É o trem que passou e me deixou na estação. É o zíper da mala que não fecha. É a roupa obsoleta guardada para ocasiões que não chegam.  As tranqueiras da despensa. A comida vencida do gato. É o que não avança. É o que retroage. É o frio causando saudade do calor. É a falta de amor. É o copo vazio. A surdez social. O vácuo. A vaziez.”

(Adriana Araf)

Se…

“Se tudo passa, porquê então sou eu um porto onde muitas coisas ficam atracadas, envelhecendo, como barcas juntando mofo? Se tudo passa, porquê não acontece um furacão e revira tudo como forma de forçar uma reconstrução? O que incomoda é essa paisagem igual, sujeita a chuvas caudalosas e sol escaldante, ali, com tudo exposto, sem proteção, carcomido por um tempo sofrido que custa a passar, como se a minha própria natureza pudesse absorver por misericórdia algo que nem ela mesmo aceita…”

(Adriana Araf)

Leitura Sensível II

“(…) Sentia-me obrigada a lutar em duas frentes: ater-me firmemente à realidade dos fatos, refreando o fluxo das imagens mentais e dos pensamentos; procurar – e ao mesmo tempo recompor as forças, imaginando-me como a salamandra, que é capaz de atravessar o fogo sem se queimar. Não me deixaria sucumbir, encorajava-me a agir. Defender-me de todas as formas e modos. Receava sobretudo a minha incapacidade crescente de me deter numa ideia clara, de me concentrar numa ação necessária. As inflexões bruscas, desgovernadas, assustavam-me. “És uma mulher de hoje, agarra-te a tudo o que possas, não recues, não te percas, mantenha-se à direita. Sobretudo não te abandones a monólogos divagantes, nem à maledicência, nem à raiva. Abole os pontos de exclamação. Organiza as tuas defesas, conserva a sua inteireza”. O meu dever, pensava, é provar a minha capacidade de continuar saudável (…)”

(*Elena Ferrante, algumas outras páginas lidas de Crônicas do Mal de Amor)

Leitura sensível I

“Resolvi-me: bastava de sofrimento. Aos lábios da falta de felicidade, devia responder com os da minha desforra. Não era uma mulher que se deixa desfazer em bocados pelos golpes do abandono e de ausência até enlouquecer, até morrer. Recebera, na verdade, alguns estilhaços, mas, de resto, continuava inteira. Estava intacta e intacta continuaria a estar. Sou uma mulher que reage (…)”

Elena Ferrante, em  Crônicas do Mal de Amor


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