Outro fragmento

“Tudo quanto pertence ao passado parece ter caído ao mar. Tenho recordações, mas as imagens perderam a nitidez. Parecem mortas e desconexas, como múmias devoradas pelo tempo. Se tento recordar a vida, consigo apenas alguns fragmentos estilhaçados. É como se uma das minhas existências tivesse terminado e exatamente onde eu não sei. Não devo nenhuma lealdade, não tenho responsabilidades, nem ódios, nem preocupações minhas ou alheias me impactam. Não sou pró nem contra. Sou neutro. E o que é mais estranho é que a ausência de qualquer relação entre ideias e vida não causa angústia nenhuma, desconforto algum. Os acontecimentos do dia se dão tranquilamente, sem aparato, de quando em quando apenas uma presença humana, um ego, um toque de vaidade. No entanto, há dias em que o sol não brilha e eu saio do caminho trilhado e penso famintamente, apesar da minha sinistra satisfação.”

(Henry Miller, autor americano, em Trópico de Câncer)

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