Outonizar…

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“Era difícil dizer quando chegara ao certo o Inverno. Primeiro, ocorreu um arrefecimento das temperaturas noturnas. Depois, chegaram os dias de chuva ininterrupta, as rajadas desordenadas do vento atlântico, a umidade, o cair das folhas e a mudança das horas nos relógios. Continuavam a verificar-se, em todo caso, tréguas esporádicas, manhãs de céu limpo e luminoso, que permitiam que se saísse de casa sem agasalhos. Mas tratava-se de qualquer coisa como os sintomas enganadores da remissão de um paciente sentenciado à morte. O parque vizinho se transformou numa superfície desolada de lama e de água, iluminada apenas pelo clarão riscado da chuva nos postes públicos. Certa noite, quando o atravessava debaixo de um aguaceiro, veio-me à memória um dia de calor intenso do Verão anterior que, deitado no chão, tirara os sapatos e acariciara a relva com os pés descalços, enquanto o contato direto com a terra me trazia uma impressão de liberdade, fazendo-me sentir tão em casa no mundo como se estivesse em meu quarto.”

(Alain de Botton, A Arte de Viajar, 6ª. edição)

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