Notável

A obra-prima de Haruki Murakami, Crônicas do Pássaro de Corda, contendo 632 páginas em letras pequenas, o que, na projeção, se tivesse caracteres maiores, certamente iria a mil, trata-se de um livro de textura de seda. Tudo o que vem da ponta de seu lápis é singular.

Na página 359, há esse relato de um simplório dia do cotidiano do personagem principal. Muito delicado.

(Adriana Araf)

“De finais daquele estranho Verão até à chegada do Inverno, não ocorreu na minha vida nenhuma mudança significativa digna desse nome. Os dias começavam e acabavam sem histórias. Em Setembro, choveu muito. Em Novembro, houve dias de tanto calor que todo mundo suava em desespero. Fora o tempo, a dar os ares das suas características, os dias eram todos iguais. Da minha parte, ia quase sempre à piscina, nadava várias distâncias, passeava, preparava três refeições por dia. Procurava, assim, empregar as minhas energias apenas em tarefas concretas e práticas. Apesar disso, volta e meia eu tinha um profundo sentimento de solidão. A água que bebia, o próprio ar que respirava faziam-me sentir na pele longas agulhas de ponta afiada. As páginas dos livros que folheava ameaçavam-me com seu brilho metálico, como o fio de uma navalha. Às quatro da madrugada, quando tudo estava em silêncio profundo, podia ouvir crescer as raízes da minha solidão. E, contudo, sozinho e isolado, há quem não me deixasse em paz (…)”.

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