Não ter para ter

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(…) Ter consome muita energia. Vigiar o que se tem consome ainda mais, desgasta, corrompe a alma. Bom mesmo é desfrutar. Eu não quero o veleiro, quero a viagem, não quero o disco, quero a canção. Entendes? (…)
– Sofro desta ânsia de não ter, mano. A minha maior ambição é ter cada vez menos. Quem nada tem, tem mais tempo para tudo o que realmente importa.
– Isso é budismo?
– Não. Puro preguicismo.
– Preguiça? Parece-me uma ambição enorme, sobretudo num país onde as pessoas querem ter cada vez mais.
Armando pensou um pouco:
– Talvez tenhas razão. Sou preguiçoso, mas sou um preguiçoso com grandes ambições. Se é para não ter, então quero não ter muito. Se é para não fazer, quero não fazer muitíssimo.

(José Eduardo Agualusa, em “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”)

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