Muito se fala sobre ir, mas poucos têm coragem de conversar sobre voltar…

adriana ponte

Raramente vejo pessoas compartilhando como foram seus retornos para “casa” após um tempo viajando ou em um sabático.

Por que isso acontece? A verdade é que quando se vai, não é possível mais voltar.

É impossível se encaixar novamente. O seu trabalho antigo não fará mais sentido, as conversas entre amigos de longa data vão parecer desconectadas e o entusiasmo de rever a família durará pouco.

Voltar dói, aperta o peito e aflige a alma. Para os espíritos viajantes, voltar é desentendimento, agonia e prisão. E é por isso que vemos tantas pessoas buscando uma vida nômade ou uma forma de viver na estrada. Elas querem manter aquele sentimento para sempre. Mas será que é possível?

Em 2017 eu retornei de uma experiência de viagem volta ao mundo. Foram 27 países em dois anos e o que era para ser apenas um sabático se tornou um estilo de vida no qual, pela primeira vez, senti que eu estava sendo eu mesmo. 100% eu. Sem nenhum rótulo profissional, familiar ou de classe. Apenas eu.

Parecia que eu tinha conseguido sair de um cárcere que eu nem sequer sabia que eu estava preso. A tomada de consciência de que eu vivia em um sistema que me fazia trabalhar pensando no final de semana, consumir desenfreadamente para me encaixar, valorizar o ter e repetir padrões apenas porque “era assim”, surgiu porque pude viver algo totalmente oposto disso.

A sociedade como a conhecemos impõe uma vida em que tudo é planejado, premeditado e esperado. Você sai da sua infância já sabendo exatamente o que vai acontecer nos seus próximos anos, e nos anos depois deles, e todos esperam tanto que você faça isso, que você passa acreditar que não há outras formas de existir. Mas há.

Quando eu pude, verdadeiramente, viver um dia de cada vez, houve uma epifania no meu sistema. “Como assim eu não ‘tenho que’?”. Eu senti liberdade.

Minha única preocupação era o vencimento do meu visto, porque até mesmo hospedagem, alimentação e transporte eram providos de alguma forma pelo acaso e pela partilha. Eu chegava nas cidades e ficava o tempo que queria e ia embora quando sentia, por intuição ou por vontade mesmo. Sem necessidade de bater o ponto.

Experimentar uma vida sem escolhas. Entregar seu destino a uma carona de beira de estrada, substituir o dinheiro por outras formas de pagamento, trocando trabalho, ajuda, palavras e conversas por alimentação e hospedagem. Doar o seu tempo para algo que você acredita genuinamente, fazer voluntariado comunitário, conhecer alguém novo todos os dias, ver a natureza na sua mais pura forma e experimentar sentimentos que até então você desconhecia. Tudo isso para descobrir a paz de poder ser quem você quiser ser.

É isso que a estrada em longos períodos faz com você. E quando você volta, você precisa aprisionar o grande pássaro que um dia voou alto, que cresceu suas asas, em uma gaiola que ele nunca escolheu estar.

Eu voltei sabendo que queria partir novamente. Quatro anos se passaram e isso ainda não aconteceu. Eu sabia que seria assim. Já tinha sido tão difícil sair pela primeira vez. Imaginei que se repetiria.

Tenho buscado um equilíbrio. Há dias que dói mais, em outros me questiono se não estou sendo ingrato. Mas no final percebo que não é isso, é apenas eu querendo lutar contra a minha natureza.

Hoje em dia viajo quando posso e cedi um pouco de mim à roda da “vida típica”. Questões sobre apreciar uma vida estática ainda me rondam. Mas vou seguindo como posso e fazendo o que é possível. E por isso te digo, se você partir. Esteja consciente que nunca mais voltará. Quem um dia vai é apenas uma pessoa, quem um dia volta são várias dentro de apenas um coração.

Flávio Santos

Autor do livro “O Mundo que Pertenço”

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