Letras Sensíveis

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Recebi esse texto cheio de sensibilidade. Adorei. O autor informa que, escrito em 2011 sobre uma Oliveira de 2850 anos que frutifica até hoje, a bela matriz está numa praça de Santa Iria da Azoia, Concelho de Loures, naquele igualmente belo e amado país chamado Portugal.

Eis:

“Nasci em Santa Iria de Azoia quando não havia ainda Santa Iria de Azoia. Para ser mais precisa, nasci em Portugal quando nem Portugal havia. Europa não tinha esse nome, eu tampouco tinha o que agora tenho – e que me foi dado hoje mesmo. Havia só essas montanhas, um pouco menos velhas do que as vejo agora, e o vento era mais frio, o ar mais limpo, os dias mais longos – ou talvez eu esteja inventando uma infância neste instante, porque a minha é tão distante que eu a confundo com a infância do mundo. A Terra então era plana, e o sol rodopiava em torno dela, feito um pião.

Brotei como brotam todos os dias milhares de vidas, e nada em mim apostava que eu fosse sobreviver a tudo que havia de vivo à minha volta. Talvez devesse ter nascido pedra, essas, sim, nascidas para ver passar os séculos como passam nuvens. Mas pedras não dão frutos (não que eu saiba, de pedras entendem só minhas raízes), e eu havia de frutificar e frutificar, primeiro um tanto trôpega, depois com mais ciência, até por fim fazê-lo como faço agora – como quem respira, como quem sua, como quem pisca os olhos para os lubrificar, como quem chora uma lágrima verde, amarga, dura.

Vi (modo de dizer, não tenho olhos) surgir e esfumar espécies, impérios, glaciações. Entre um bocejo e outro, senti os continentes se afastarem mais um pouco (jangadas de terra, eu diria, sem medo de parecer pouco original). Estava aqui quando um terremoto varreu Lisboa, quando o Tejo corria por outro caminho, quando alguém pela primeira vez disse a palavra “Tejo”, quando uma aldeia se debruçou sobre o Tejo para que ele a beijasse. O Tejo não sabe de mim, mas sei que gosto têm suas águas – a chuva me trouxe, já, um pouco de cada rio, de cada mar.

Nunca saí daqui: o mundo é que me visita pelo vento. Tenho na pele (modo de dizer, não tenho pele) grãos da Namíbia, cinzas da Islândia, pólen da América, a poeira de um meteoro que caiu na Rússia. Daqui não preciso sair, andar é uma ilusão. Conheço seres que se movem, seres que voam, e nenhum deles dura, e todos voltam ao lugar de onde saíram – e os que não podem voltar sentem saudade.

Não sei o que é saudade porque tudo que passou por mim (exceto, talvez essas montanhas) foi tão breve que não deixou marca. Vê esses nós? esse caule retorcido, essas raízes que parecem querer morder a terra? Não são rugas, são memória. A saudade é quanto a memória mente, e inventa uma felicidade maior que a que existiu. Eu não fui feliz nem fui triste: fui. A saudade é quando os outros entram em nós, bebem da nossa bilha, comem do nosso pão, adormecem no nosso travesseiro – e se vão, deixando o farelo na mesa, o côncavo do corpo no lençol, a assinatura do lábio no copo. Em mim ninguém entrou jamais, de mim só me tiraram o que não era meu (os frutos que criei para serem outros seres, e que foram feitos para ir embora e se esquecer de mim). Se é para ter saudade, eu a terei depois – quando for lenha, brasa, cinza. Quando for, de novo, pó – ou letra de fado.

Acho que divago, devaneio. Não há montanhas em volta, só o trânsito. Do olival, restei apenas eu, pois se esqueceram de me por abaixo para construir essas casas feias que o vento há de levar, como levou os árabes e os romanos, como levará esse idioma em que vos falo, como levará a ti que me lês. Eu fico aqui, sob o mesmo luar que rege mênstruos e oceanos, sob o sol que me alimenta há 3000 anos, e que morrerão, também eles, numa data já marcada. “Mas enquanto dura esta hora, este luar, estes ramos, esta paz em que estamos… deixa-me sonhar, porque a vida é nada”.

*De Eduardo Affonso

 

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