Em crônica: “O Senhor de uma taça só″

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Quando a solidão entrou em minha vida, foi por um detalhe. Ocorreu sem alardes, sem xingamentos e não foi por meio de preenchimento de fichas cheias de perguntas para compor um mailing list, onde eu seria um produto mercadológico em potencial.

Ninguém me chamou de velho solitário numa discussão desncessária e nenhuma terapeuta atenciosa me comunicou a condição para trabalharmos depois tal estado de isolamento dentro de alguma linha.

Naquele dia, estava eu querendo tomar um tradicional vinho. Coloquei terno, gravata; calcei sapatos bonitos; usei perfume de ótima qualidade. E saí.

Escolhido o local, sentei-me retirado numa mesa igualmente retirada. De canto. Solicitada a carta, feito o pedido,  vieram duas taças à mesa. Meio tímido, com poucas palavras, eu disse baixinho ao garçomApenas uma, por favor. Estou sozinho”. Em restautantes do nível, sempre há uma contra-resposta meio que para confirmar o que realmente o cliente desejou ou falou. “Sim, o Senhor está sozinho, apenas uma taça, então. Vou retirar a segunda. Mais alguma coisa, Senhor?”.

Duas frases sentenciais sobre minha existência. E uma delas ecoando: “Sim, o Senhor está sozinho”, “sozinho”, “sozinho”, “sozinho”, “zinho”, “zinho”, “inho”, “inho”, “nho”, “o”, “o”…

Sorver um vinho amadurecido leva tempo. Não se bebe a goladas dentro de canecadas.

Aquela de fato seria uma noite interminável, mas era a minha.

Depois das frases, com aquela verbalizada minutos atrás por mim “Estou sozinho” e confirmada num imediatamente após (até que em tom simpático, confesso) “Sim, o Senhor está sozinho”, fui laureado pelo tilintar de outras taças, barulhentas garfadas e sonoras gargalhadas dos demais convivas, mas, ao mesmo tempo – que engraçado, me senti corajoso por estar ali. Voltei para casa com meu paladar regado ao que há de melhor. E, já que foi uma noite solitária de encontros com o meu eu, confesso, pela segunda vez, (inebriados, adoramos nos confessar) que em mim também havia um certo gosto amargo na alma por ter feito uso de apenas uma taça sem o costumeiro universal “tim-tim”.

Cheguei, tirei aquela “farda” bruscamente, joguei tudo sobre a poltrona rasgada que eu precisos consertar há séculos e fui dormir. E dormi bem, acordando com meu despertador natural sobre minha face, afinal esquecera de puxar as cortinas na noite passada. Quando se mora sozinho é assim: cada coisinha tem que ser pensada por você. Até as menores.

Acordei assim bem, já sob o efeito da luz do dia.

O bom da vida é que há novos dias com novas sensações. Um reciclável meio que automático que podemos, inclusive, optar por acelerar ou não. Fato incontestável é que giramos dentro de uma bola que também gira. Seres que às vezes se acham parados, estão sempre em movimento.

Em paz, pensei com uma certa nostalgia do que me acontecera pela primeira vez, todavia, com uma certa serenidade matinal, acabei rindo do quadro anterior ao preparar naquele instante meu café cheiroso no coador do bule azul descascado deixado de herança por minha avó.

O que me puxou o sorriso fácil foi ter a certeza de que se aceitarmos a vida em suas singelas propostas, a coisa fica mais fácil. Isso não signfica condicionarmos nossas ações a um “fazer o quê?”, mas, sim, trabalharmos bem internamente a vida que temos sem nos esmurramos com um permanente “poderia ter sido diferente”.

Claro que poderia. Mas diferente de quê e no quê? Pronto. Não foi. Aceito o que foi, o que é e o que vai ser.

Estar calmo sob um patamar elástico de aceitação vai gerar saltos bem mais possíveis, afinal eu tenho a vida que tenho (ôpa, a base!) e posso mudar coisas dela para gerar mais alegrias sem culpá-la pela pior vida que um ser humano poderia levar. Assim eu durmo em paz. E meu travesseiro também não me cutuca com espinhos pontudos. Agora, se não aceito o que sou e tenho, serão tantas as divagações, serão tantas as alternativas não esgotadas, que corro sérios riscos de não modificar nada porque nada me serve, afinal nem saberia por onde começar.

Já que sou hoje oficialmente o Senhor de uma taça só, penso em entrar para um clubinho de bebedores de vinhos de qualidade. Nenhum daqueles de sommeliers que exigem muita leitura e olfatos aguçados. Nada contra. É que eu adoro ter tempo livre e treinar meu olfato desobediente me demandaria muito. Quero ver se acho algum grupinho bobo que apenas aprecie noites bonitas e vinhos envelhecidos ao som de boas músicas. Ou destacar um dia, a cada quinze deles, para reunir pessoas interessadas em tomar vinhos interessantes em casa. Cada dia seria na casa de um desses de uma taça só. E cada um levaria a sua. Talvez teríamos um concurso interno da taça mais bonita. E por aí vai. A criatividade é grande quando a mente não se compadece.

Essas “grandes” ideias que estão a permear a minha imaginação simbolizam uma simplificada decisão: brindar a vida como ela é.

Com o passar do tempo e das experiências somadas a duras penas uma às outras, vamos aprendendo uma lição extraordinária: somos a melhor companhia de nós mesmos.

E que há resoluções simples que tomamos que nos salvam do apocalipse emocional.

(Adriana Araf)

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