Cinco lições de Murakami para a vida

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1. A solidão é a melhor via para o conhecimento. Em mais de um romance de Murakami, o protagonista empreende uma viagem solitária para escapar da confusão vital. No caso do jovem fugitivo de Kafka à Beira-Mar, isso lhe permitirá acessar aspectos desconhecidos de si mesmo. Quando nos vemos confrontados com a solidão depois de uma separação ou morte, ou quando a buscamos através de uma viagem iniciática, afloram partes de nós que antes estavam soterradas. Sem a proteção e o ruído dos outros, o encontro com nós mesmos é inevitável, com o que damos um salto adiante em nossa própria evolução.

2. O mundo é imprevisível. A segunda lição de vida que extraímos de seus romances é que a vida sempre nos surpreende. Portanto, é absurdo tratar de controlá-la ou nos angustiar com possíveis ameaças. No último romance de Murakami, o extenso O Assassinato do Comendador, um pintor de vida estável e acomodada recebe a notícia de que sua mulher quer se separar porque teve um sonho que a empurra a tomar essa decisão. Quando o pintor lhe pergunta do que tratava esse sonho, lhe diz que é algo muito pessoal. Se só podemos esperar o inesperado, é inútil fazer previsões. E isso pode ser um grande calmante para a mente. Quanto aos porquês que podem surgir para nos torturar, isso nos leva à seguinte lição…

3. Não procure um sentido. Os argumentos de Murakami se desenvolvem em um mundo de caos e aleatoriedade. Muitas vezes nem sequer é possível culpar ninguém pelo sofrimento, o que é uma boa notícia. Como dizia Viktor Frankl, o ser humano vai em busca de sentido, mas grande parte das coisas que nos acontecem não o tem. Como nos romances do autor japonês, muitas vezes sentiremos que nossa vida é um sonho onde as coisas acontecem sem razão aparente. Podemos confrontar este fato com duas atitudes opostas: lamentar como o mundo é injusto e absurdo, ou surfar as ondas que a existência nos traz. Disso decorre a quarta lição…

4. Se sobreviver ao caos, você já ganhou. Dado que confrontamos sozinhos muitos trechos de nossa existência e se sabemos também que tudo é imprevisível e que não há razão para que coisas tenham sentido, então talvez a arte de viver seja sair o melhor possível da experiência. Viemos ao mundo para vivenciar coisas, para tropeçar e para resolver problemas, como fazem os personagens de Murakami. O prêmio é seguir em frente no jogo.

5. O orgulho e o medo nos tiram o melhor da vida.Em seu ensaio Romancista como vocação, Murakami menciona uma história tão mágica quanto triste. Aparentemente, em uma noite de 1922 James Joyce e Marcel Proust estiveram num mesmo restaurante de Paris, onde jantaram em mesas próximas. Os comensais que os reconheceram estavam emocionados, esperando que aqueles gigantes da literatura começassem a debater. Nada aconteceu. Nas palavras do japonês: “A noite chegou ao fim sem que nenhum dos dois se dignasse dirigir a palavra ao outro. Imagino que foi o orgulho o que frustrou uma simples conversa, e isso é algo muito frequente”. Quantas vezes perdemos uma oportunidade, pessoal ou profissional, por não ter dado o passo? Trata-se de orgulho, como interpreta Murakami, ou do medo de sermos rejeitados. Ao nos conter talvez deixemos a mais bela página de nossa história por escrever.

Por Francesc Miralles, escritor e jornalista especializado em psicologia.

fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/26/eps/1561540814_571709.html
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