A aridez comum dos dias comuns

“Alguns dias despertam mais áridos que outros.

Você acorda e nenhuma peça se encaixa, nenhuma roupa tem bom caimento, o cabelo mudou de humor, o espelho traz um reflexo ruim.

O embaçado das horas toma conta de alguns dias estranhos, mas a gente sabe que vai passar. Se não é depressão, doença séria que merece total atenção, faz parte do ser humano, de sentir-se vivo, de absorver energias ao nosso redor, de sentir empatia, de estar alinhado a outras consciências, nem sempre conscientes de si.

Nem todo dia promete, nem toda espera tem o seu encontro, nem tudo se aperfeiçoa dentro da gente.

Tem dias em que você tem que se deixar pra lá, se relevar, esquecer de tentar ser o mesmo.

Dias áridos acontecem o tempo todo, pra qualquer um _ até para aqueles que não sofrem de alterações hormonais nem carregam bipolaridades.

São saudades vazias que voltam pra assolar o peito, desejos insatisfeitos, falta de sentido diante do trivial, percepção do mundo por lentes desfocadas, ausência de fome para o novo.

Nesses dias tão estranhos não adianta insistir. Nem tentar manter a rotina de antes (você estará diferente por alguns dias, apenas tolere).

Mude o trajeto e esqueça diagnósticos sombrios. Você é como todo mundo, e dias assim acontecem a todo momento (se durar mais que uma semana, procure ajuda).

Porque chega uma hora em que as janelas querem ser novamente escancaradas, o sol deseja queimar a pele de um jeito novo e o tédio dá lugar à esperança.

Mas ainda assim, são ciclos. E por mais cansativo que seja, você não está livre de, uma hora qualquer, voltar a habitar o árido que há em você.

Porém, ao entender que ele existe e não pode ser negado, apenas enfrentado, conseguirá aceitar melhor os momentos e a si mesmo.

Infelizmente forçamos demais a barra para sair do acinzentado dos dias. Só nos permitimos navegar em águas límpidas e remamos desesperados para longe do rio turvo que de vez em quando vem se juntar ao nosso mar.

Esquecemos que a existência não é linear. Ao contrário, de vez em quando nossos remos pesam e nossas braçadas ficam mais difíceis. Mas chega uma hora em que, do mesmo jeito que as peças se desalinham, elas também se organizam. E naquele mesmo lugar onde só havia inadequação, começamos a enxergar beleza e verdade. Sem explicação. Sem questão hormonal que explique o peso e a leveza que se intercalam em nossas caminhos ou esquinas”.

(texto de Fabíola Simões)

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