Eu, pecador, me confesso

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Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão ao leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
De virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais,
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
E o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
Do tal Céu que Deus governa;
De ser um monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

(Miguel Torga)

Risos e Melancolia

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“No princípio, os chamados pecados capitais não eram sete, mas oito, e a melancolia estava entre eles. No final do século VI o Papa Gregório I reduziu os oito pecados capitais para sete, e a melancolia foi perdoada. Os sábios da Igreja Católica consideravam que a melancolia insistente, obstinada, aquilo a que hoje chamaríamos um estado depressivo crônico, ofendia o senhor Deus, pois o indivíduo melancólico perde toda a alegria, isola-se, revolta-se contra os outros. Eventualmente, suicida-se, e ao fazer isso desdenha o milagre quotidiano da vida. Resumindo: despreza a obra de Deus. Nem todos estavam de acordo.

Argumentavam outros teólogos que a melancolia não pode ser um pecado, pois não consiste numa ação concreta e sim num estado do espírito. E como se alguém nascesse com uma deformidade que o impedisse de se maravilhar e alegrar com a beleza do mundo. Culpá-lo disso seria o mesmo que culpar um coxo por não conseguir correr rapidamente. A discussão durou séculos.

Compreendo os doutores da Igreja que defendiam a primeira tese. A tristeza enquanto modo de vida sempre me pareceu um pecado grave. O pessimismo, esse filho bastardo da melancolia, é frequentemente uma espécie de adorno arrogante que alguns pensadores colocam na lapela para parecerem inteligentes. O pessimismo é, na verdade, uma facilidade do espírito, uma preguiça do pensamento, um luxo dos povos felizes, como escrevi algures. Difícil é ser otimista. Urgente é ser otimista.

Entre nós, angolanos, nem há – é bem verdade – alternativa ao otimismo. Acordamos, lemos os jornais e rimos daquilo que faria chorar um sueco ou um holandês. Rimos porque, apesar das notícias dos jornais, estamos vivos. Continuamos vivos. Rimos porque respiramos. Rimos porque escutamos, no quarto ao lado, as gargalhadas dos nossos filhos. Rimos porque sabemos dançar. Rimos porque podemos dançar. Rimos porque a esperança se alimenta do riso. Rimos porque o riso é subversivo. Rimos porque o riso é revolucionário.
Rir é resistir.
«O riso», escreveu Eça de Queirós, «é a mais antiga e ainda a mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em tomo de uma instituição e a instituição alui-se.»
«Uma boa gargalhada», acrescentou Nabokov, «é o melhor dos pesticidas.»

(…) As notícias não são boas, mas a nossa alma é maior do que o desânimo. Então rimos. Rimos de quem nos quer em silêncio. Rimos de quem abandonou a própria arte e se vendeu, e gostaria que todos estivessem à venda. Rimos de quem nos quer paralisar de horror. O riso é a arma com que enfrentamos a maldade e a estupidez. A melancolia é uma capitulação. A melancolia é uma cegueira que nos impede de ver o óbvio. O óbvio é a vida que fervilha em redor. O óbvio são as possibilidades, mesmo quando tudo em redor parece impossível. Resistir é quase um vício.

José Eduardo Agualusa, ‘O Paraíso e Outros Infernos’

A morte não é nada

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“A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.

Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.

Me dêem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.

Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.

Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.

Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.

A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?

Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho.

Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi.”

Santo Agostinho

Para Sempre

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Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘Lição de Coisas’

Mesmo assim, viajamos…

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“Seja você pobre, remediado ou rico, viajar sempre significa viver temporariamente muito além de suas posses. Esse é o barato — e o caro — de qualquer viagem. Multiplicando a diária do seu hotel por 30 você vai ver que na vida real nunca poderia pagar isso tudo de aluguel. Basta computar seus gastos diários com refeições para ter um treco imaginando quantos supermercados a mais daria para fazer no mês. Você pode até já ter se acostumado com o preço das passagens aéreas, mas se calcular quanto custa a hora afivelado naquela poltrona, você vai querer que uma máscara de oxigênio caia automaticamente do compartimento acima de sua cabeça. E isso vale para todo mundo. Metade da primeira classe deveria estar viajando na executiva, grande parte da executiva deveria estar na econômica, e a econômica inteira deveria ter ficado em casa.

Mesmo assim, viajamos.

Viajamos para fugir de tudo. E para ter saudade de casa. Viajamos para descansar. E para voltar mais cansados do que fomos. Viajamos para nos livrar das obrigações de todo dia. E para ter a obrigação de visitar dois museus e três monumentos todo dia. Viajamos para experimentar coisas diferentes, e para ter dor de barriga. Para comprar o que não precisamos e pagar com o que não temos. Para entrar em igreja e andar de metrô. Para não entender os outdoors, para desobedecer alto-falantes e para nos equivocar com cardápios. Para gentilmente pedir a desconhecidos que tirem fotos que depois vamos obrigar os conhecidos a ver. Para investigar se os McDonald’s que lá gorjeiam não gorjeiam como cá. Para fazer extensos tratados sociológicos sobre povos estranhos já no primeiro dia de estada. Para na volta ter quilos de histórias para contar e toneladas de quilos para perder.

Nada é tão motivador como a possibilidade de viajar. Na expectativa de uma viagem, pedidos de demissão são engavetados, casamentos são prorrogados, filhos são adiados. Em casos mais extremos, casas próprias deixam de ser compradas, carros escapam de ser trocados, videocassetes se conformam com menos cabeças que o do vizinho. Tanto sacrifício tem uma recompensa garantida: pouco a pouco você vai se tornando um sujeito “viajado”. E não existe nenhum adjetivo mais charmoso, nenhuma qualidade tão sem contra-indicações quanto ser “viajado”. Ser viajado é mais simpático do que ser “culto”, mais interessante do que ser “inteligente” — e quase tão bacana quanto ser “rico”.”

(Ricardo Freire, in ViajeNaViagem)


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