Movimentos

Eu ri, você riu. Um encontro extraordinário.

Eu chorei. Você não. Um desencontro comum.

(Adriana Araf)

Segundas indesejadas

segundona

Cartas Extraordinárias

Praticamente um compêndio de emoções escritas por pessoas notáveis, Cartas Extraordinárias, organizadas pelo escritor britânico Shaun Usher,  vai requerer seu precioso tempo para serem saboreadas. Adquiri ontem, numa pequena livraria do interior, indicado que foi pela atendente. Ela, estudante de letras, amara a obra e carinhosamente me ofereceu como “um livro que as pessoas deveriam ter em suas estantes para ser lido muitas vezes”. De fato.

Estou na Carta 08, onde um diretor de um hospital fala sobre a existência de um paciente, Joseph Merrick, o Homem Elefante. A carta é incrível, amorosa, doce, dotada de generosidade por quem observa o ser humano em sua essência e não em sua sua casca. Por ela, a obra já é singular. Mas há tantas outras igualmente maravilhosas que, ao final das 125 correspondências, tenho a certeza que sairei melhor por conhecer mais sobre as pessoas, fatos da história e a emoção das palavras que gera manifestações tênues ao leitor, ali, nas linhas revividas. Livro extraordinário.

Para saber mais,  a editora Companhia das Letras, que editou a versão em português, assim a descreveu:

“Do comovente bilhete suicida de Virginia Woolf à receita que a rainha Elizabeth II enviou ao presidente americano Eisenhower; do pedido especial que Fidel Castro, aos catorze anos, faz a Franklin D. Roosevelt à carta em que Gandhi suplica a Hitler que tenha calma; e da bela carta em que Iggy Pop dá conselhos a uma fã atormentada ao genial pedido de emprego de Leonardo da Vinci – Cartas extraordinárias é uma celebração do poder da correspondência escrita, que captura o humor, a seriedade e o brilhantismo que fazem parte da vida de todos nós. Esta coletânea de mais de 125 cartas oferece um olhar inédito sobre os eventos e as pessoas notáveis da nossa história. O livro reproduz a maior parte dos fac-símiles das missivas, com sua transcrição e uma breve contextualização, além de ser ricamente ilustrado com fotografias e documentos. A engenhosa organização de Shaun Usher cria uma experiência de leitura que proporciona muitas descobertas, e cada nova página traz uma bela surpresa para o leitor. Não apenas um deleite literário, mas também um livro-presente inesquecível”

Inclui cartas de: Zelda Fitzgerald, Dostoiévski, Amelia Earhart, Charles Darwin, Albert Einstein, Elvis Presley, Dorothy Parker, John F. Kennedy, Charles Dickens, Katharine Hepburn, Mick Jagger, Steve Martin, Emily Dickinson e muito mais.

(Adriana Araf)

O movimento da alma

Jejum de palavras

Ficar em silêncio ajuda não apenas a tranquilizar a mente e as emoções, mas a encontrar respostas, tomar decisões, diminuir a ansiedade, o estresse e melhorar as relações. Vale a pena tentar…

Muito se fala sobre o poder da palavra, mas pouco se celebra o silêncio. Não é fácil para uma sociedade hiperconectada, produtiva e focada no consumo acreditar na potência do “não dizer nada” para transformar emoções, reações, estados mentais e construir relações mais harmônicas. Mas é no silêncio que conseguimos colocar os pensamentos em ordem. É o silêncio que favorece o autoconhecimento. É na ausência de diálogo que percebemos a força da conexão com o outro. Atrelado à meditação, o jejum de palavras tem, aos poucos, se disseminado enquanto uma prática que ajuda a encontrar respostas, tomar decisões, aliviar a ansiedade e o estresse e alcançar a serenidade e a paz.

O jejum de palavras consiste na prática do silêncio, na abstinência da fala, em não se comunicar, mas também em não assistir televisão, navegar na internet ou ler. Médica e instrutora da Escola de Meditação da Organização Internacional Cóndor Blanco, Silexi Menta afirma que a meditação conduz a pessoa ao silêncio, assim como o silêncio leva a um estado meditativo. “O pensamento é linguagem. Uma pessoa que fala muito está pensando muito e tem a mente agitada. De nada adianta ficar em silêncio, mas com os pensamentos a mil”, pondera.

Apesar de grandes tradições religiosas e espirituaiscontemplarem a meditação como prática, não é preciso ter religião para praticar a meditação ou o silêncio. A meditação é um exercício cerebral consciente já comprovado pela ciência em imagens de ressonância magnética, que mostram alterações benéficas no cérebro no momento em que é realizada. O modo de funcionamento padrão do cérebro de qualquer pessoa é o de deixar a mente vagar, que é o ‘ficar sonhando acordado’. Essa mente com foco de atenção frágil é chamada “mente selvagem”. A expressão é usada em contraposição à mente treinada pela meditação.

Por essa razão, pode ser difícil para muitas pessoas encontrar o silêncio apenas com o jejum de palavras. “Aprender um pouco sobre meditação é importante para começar bem na prática do silêncio e para que o processo não seja árduo”, salienta Silexi Menta. Além da meditação, ela afirma que exercícios respiratórios auxiliam a acalmar a mente, assim como atividade física, como ioga, natação ou corrida, e ouvir música. “Uma outra sugestão para quem nunca fez um jejum de palavras é passar um dia observando o que se fala. Seria o ‘Dia Zero’. Veja como você se comunica e qual é o seu pensamento. Assim, você terá noção do quão negativamente (ou não) você fala e pensa”, sugere a instrutora de meditação.

A dificuldade não deve ser um empecilho. Caso não consiga sentir os benefícios na primeira tentativa, insista. Uma dica é começar com alguns minutos antes de dormir ou, sempre que tiver a oportunidade de estar em um lugar silencioso, desligue o smartphone e permita que o silêncio te encontre.

Uma vez ao ano

Desde 2010, a empreendedora Clarissa Cruz, de 39 anos, é adepta do jejum de palavras. Uma vez ao ano ela se propõe a ficar 24 horas sem conversar. Coordenadora de comunicação do Instituto Aura Mater, que estuda os ensinamentos da Grande Fraternidade Branca, ela acredita que cada ser humano tem quatro corpos. Além do corpo físico, o emocional, o mental e o etéreo, que seria o mais sutil deles e que conectaria cada indivíduo com o mundo superior. “Somos seres sociais por natureza. Lemos, aprendemos, vemos, processamos, julgamos, sentimos, queremos. Acredito que elementos mais sutis que integram o nosso ser ficam de lado ao valorizarmos essas interações. Com o silêncio, damos espaço para que outras coisas ocorram”, afirma.
Todo começo de ano é o momento de Clarissa silenciar-se. “É perto do meu aniversário e o momento de ‘me resetar’, para que novas ideias venham”, diz. Além disso, como mora numa casa em um condomínio da Grande BH, em área de preservação ambiental, a empreendedora diz que é comum ficar três ou quatro dias sem conversar com ninguém. Para ela, o silêncio melhora a intuição. “Percebo que, às vezes, estou pelejando com um raciocínio ou em busca de uma solução, e ficar sem falar me ajuda a encontrar as respostas que preciso”, explica.

Para ela, o jejuar de palavras fica ainda mais poderoso quando ‘silencia’ também o pensamento, por meio da meditação. “A primeira vez que fiz o jejum de palavras, em 2010, achei que ficaria irritada ou sem saber o que fazer. Mas isso não ocorreu. Pelo contrário, fiquei mais paciente e mais compreensiva. Sinto-me mais centrada, sinto que acesso o que há de mais superior em mim e, por isso, é mais fácil lidar com o outro. Meu organismo agradece esse estágio de calma e sinto uma clareza mental que não é só intelectual, mas de sentimento também”, relata.

Apego
O mestre zen budista Seigen Viana afirma que o ser humano é silêncio. Assim, ele estaria sempre presente. No entanto, a percepção do silêncio é obstruída pelo apego ao pensamento. “Em nossa sociedade, não conhecemos o silêncio enquanto matéria de estudo e de prática. Isso simplesmente não é considerado, nunca se fala sobre não pensar na escola, quanto menos praticar o silêncio por meio da meditação. O foco é sempre no pensamento, na memória e no acúmulo de conhecimentos. Esse é o caminho oposto para o encontro com o silêncio”, afirma.

Para o budismo, explica o mestre Seigen, o silêncio é o modus operandi da própria natureza, do universo e é sobre ele que surge a cultura humana, não o oposto. “Enquanto prática, o silêncio significa a não ação, retirar-se de sua própria mente e abster-se do mundo. É não pensando, que aprendo a pensar. Não falando, que aprendo a falar. Não agindo, que aprendo a agir. Em todo lugar há silêncio”, observa.

Benefícios
A instrutora de meditação Silexi Menta explica que ficar sem falar diminui o fluxo de pensamentos, a pessoa fica mais consciente de si mesma e se torna auto-observadora. “Mais consciência de si mesmo nos faz mais conscientes dos nossos atos e das nossas palavras. A palavra pode causar um grande estrago. Depois de um jejum de palavras, a pessoa fica mais atenta ao que diz e, consequentemente, melhora suas relações e gera harmonia”, diz.

Segundo ela, somos seres automáticos e, por isso, nos esquecemos de nós mesmos. “A gente fala automaticamente e falar gasta energia. Fala-se, fala-se, fala-se e pouco se diz. Um dia sem falar vai economizar energia e proporcionar calma e paz mental”, afirma.

Silexi Menta afirma, ainda, que o silêncio deixa a mente calma e o pensamento fica mais claro. “É como se a pessoa ficasse mais inteligente. Se o jejum de palavras for benfeito, as emoções se acalmam. O auto-observador passa a controlar a emoção que ele quer sentir e a pessoa fica menos reativa, porque se volta para si. Com isso, aumenta a conexão com o outro”, cita. Assim, a prática do silêncio é uma forma de se comunicar melhor com o outro e de fortalecer e melhorar as relações.

Para ela, o silêncio é vital para alcançar a paz interna. “A resolução de conflito tem relação direta com a palavra. A palavra é o meio de se chegar ao outro. Não vivemos sozinhos e precisamos observar nossas palavras e nossos pensamentos para usar palavras sábias. E, assim, o mundo vai mudando”, finaliza.

No budismo
Do ponto de vista do budismo, no entanto, abster-se de pensar é o suficiente para encontrar o silêncio. “Se a pessoa busca benefícios, então não há mais silêncio. As emoções e todo o viés psicológico são atributos do ego. O silêncio do qual estamos falando é ir além do ego. O bem-estar surge pela sincera não identificação consigo mesmo. Este é o princípio do não sofrimento, tema central no budismo”, esclarece o mestre Seigen Viana.

Segundo ele, não há uma real separação entre as coisas e as pessoas. “É por que eu penso e acredito no pensar que acontece a separação. Eu sou esquerda, você é direita. Eu sou rico, você é pobre. Eu sou cidadão, ele não. O que está criando essa separação? Meu inconsciente está condicionado e me faz pensar desta ou daquela forma, acredito que estou no controle, mas não sei o que vai acontecer no próximo instante. Estou sonhando todo o tempo”, conclui.

(fonte: Jornal Correio Braziliense, Valéria Mendes – em “Saúde Plena”)


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